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BRASIL • 31/12/2002

As duas faces da Esquerda.

por Marco Aurélio Nogueira.

A chegada do PT ao governo federal tem sido interpretada, por muitos analistas e estudiosos da política brasileira, como sendo a resultante de uma firme guinada rumo ao centro. Não falta mesmo quem veja, na trajetória recente deste partido, uma aceitação, mais ou menos explícita, mais ou menos dissimulada, das teses da social-democracia, a mais moderada das correntes socialistas que se vincularam historicamente ao movimento operário.

Nesta visão, o PT expressaria o reencontro da social-democracia com a classe operária, uma espécie de reposição purificada do particular tipo de socialismo praticado por esta corrente. Creio que deveríamos aceitar com mais reservas esta opinião. Não porque não se possa vislumbrar, nos últimos anos, uma firme e clara opção do PT pela moderação, pelo realismo e pelo pragmatismo. Houve tudo isso, com certeza. O partido avançou rumo à vitória eleitoral demonstrando uma inequívoca disposição de passar em revista muitas de suas opções programáticas e particularmente o seu modo de fazer e viver a política. Ainda não temos como saber se esta disposição já se converteu numa nova cultura para todo o universo petista, mas é um fato que ela passou a orientar os passos da direção do partido.

As relações da esquerda com o centro não são simples, nem lineares. A opção pelo entendimento com determinadas forças de centro seria mesmo prova de "reformismo" e moderação? Trairia seus ideais o partido que se dispusesse a dilatar os tempos de seu programa máximo (as reformas socialistas) e a fazer concessões a uma ampla coalizão política para conseguir governar ou para pavimentar a estrada que levaria a uma investida radical no futuro? Que condições seriam indispensáveis para que um diálogo com o centro não se traduza em paralisia e descaracterização para a esquerda? É evidente que o PT correrá riscos se for ao centro em nome da governabilidade ou da mera constituição de um "capitalismo humanizado". Na verdade, a busca do centro necessita de um pólo esquerdo claro e forte para servir de referência.

O diálogo da esquerda com o centro só fará sentido se for pensado em termos substantivos, distante de casuísmos eleitorais ou daquele amor pela tática que tantos tropeços propicia às forças progressistas. Para a esquerda, o centro existe como algo a ser interpelado, tendo em vista uma progressiva alteração dos equilíbrios políticos, uma nova hegemonia. É por isso que o melhor modo de retratar a realidade do PT não é seguindo o caminho que leva da esquerda para o centro. O que estamos assistindo hoje é a transfiguração de um partido que se inseria de modo quase exclusivo nos movimentos e nas lutas sociais em um partido que se dispõe a deitar raízes consistentes no Estado e no conjunto das instituições políticas. Tal transfiguração contém um elemento inevitável de "moderação": sua própria progressão significa o reconhecimento da importância estratégica do campo organizado pelas instituições, pelas normas, pelas exigências da governabilidade, pelos tempos mais longos da negociação política, e assim por diante. Há, portanto, nesta operação, um risco efetivo de que se acabe por converter o institucional no único horizonte possível, com o conseqüente abandono do reformismo social.

A questão que estaria posta hoje, portanto, é a de saber de que modo o PT está passando do social para o institucional: se avança perdendo os movimentos sociais que lhe estão no sangue ou se avança deixando-se contagiar por eles, se atua para "domesticar" o social, tirando-lhe a espontaneidade e a radicalidade, ou se atua para imprimir ao social uma nova qualidade, fazendo com que supere sua dispersão, seu corporativismo e se projete como força efetivamente transformadora. A opção da esquerda pelo institucional não precisa se traduzir necessariamente em falta de combatividade e moderação, mas isso é inevitável na medida em que ela perde suas raízes sociais. O social e o institucional funcionam, para a esquerda, não tanto como os dois lados de uma mesma moeda, mas como as duas faces de um único rosto.

A "esquerda positiva" de que fala o cientista político Gildo Marçal Brandão não pode se afirmar se for devorada por uma ou por outra destas suas duas faces constitutivas. Uma "esquerda de governo" não tem como se erguer sem uma "esquerda de valores" ou sobre as cinzas de uma "esquerda de luta".

Marco Aurélio Nogueira

Fonte:

La Insignia. http://www.lainsignia.org