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BRASIL • 1/1/2003 Hoje começa, para o Brasil, uma nova era.
O Brasil tem, a partir de hoje, uma chance jamais vislumbrada em
seu horizonte social e político: a de reiniciar, em novíssimas
e revolucionárias bases, a sua história. Não, não há qualquer exagero na afirmação acima, pois com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva inicia-se um período de revisão e reestruturação das instituições políticas brasileiras. A sociedade será chamada a fiscalizar, muito de perto, os meandros da administração pública federal e dos demais poderes da República. Cada núcleo de decisão e de poder será convocado a agir com inédita transparência. Os diferentes setores do Estado deverão ser reordenados, de forma a cumprir a finalidade para a qual foram criados: servir à sociedade. E não se admitirá, sob qualquer hipótese, o menor gesto de corrupção. As reformas pelas quais a população aguarda, virão. As mudanças serão lentas, pois o Leviatã é indócil e relutará em aceitar o que não se assemelhe às perfumarias que permeiam nossos poucos séculos de vida, recheados de falsas revoluções e de golpes cujo único objetivo era enriquecer setores descontentes da oligarquia nacional. Mas uma inelutável mudança já se encontra em marcha. Não seremos ingênuos de acreditar que tudo será fácil. Os vícios da burocracia nacional não serão debelados da noite para o dia. Os conservadores, encastelados em seus feudos, usarão de todas as artimanhas - legais e ilegais - para barrar as reformas e enredar o governo numa rede de empecilhos. O pântano gerado por uma história na qual os poderosos ditavam as regras e o povo, mesmo contra a vontade, as seguia, precisará, para começar a ser drenado, de muitos meses. Setores dissimulados, preconceituosos e partidários da mídia estarão à espreita para falsear os fatos, edulcorar os golpes da direita, propagandear inverdades e conclamar os descontentes à revolta. E os radicais da esquerda não terão pudor em exigir que a estrutura sedimentada por séculos de injustiças transforme-se numa rapidez impossível. Contudo, à parte os problemas que aguardam o novo governo, parece ter se criado um círculo de otimismo e esperança inigualáveis, reforçados, no mínimo, por três fatores: as décadas de perseguições e lutas que a esquerda protagonizou, tendo chegado, finalmente, ao poder, preparada por experiências administrativas exitosas em vários estados e em centenas de municípios; uma campanha que soube abdicar dos chavões carcomidos da esquerda e construir, pela primeira vez, um discurso que alcançasse o imaginário popular; e os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, durante os quais ele compartilhou as decisões da área econômica com o sistema financeiro, seguindo cegamente as orientações do Fundo Monetário Internacional, bem como seus derradeiros dias, quando temos visto o país entregue aos especuladores de toda espécie, a uma nefasta onda de aumentos e a uma inflação ascendente. O novo governo guarda, assim, as chaves para desencadear um período de saudável nacionalismo, no qual possa ser resgatado um sentimento coletivo de orgulho e confiança que nos faça cantar o hino nacional sem que a consciência nos agrida, acusando-nos de cinismo. Um período em que a população possa se sentir como o principal objeto das políticas governamentais; em que a saúde, a educação e a moradia sejam encaradas como direitos inalienáveis; em que o público se sobreponha ao privado; em que as conquistas da dignidade e da plena cidadania sejam semeadas sem qualquer temor; finalmente, em que o Estado se vergue à vontade e ao desejo da sociedade. Vislumbrar a silhueta da utopia no horizonte deste novo ano, elevando-o,
assim, à condição de início de uma nova
era, é um exercício que se divide entre a temeridade
e a esperança. Os traços que distinguimos são,
ainda, tênues e incertos, é verdade, mas a trajetória
dos homens que hoje ascendem ao poder não deixa dúvidas:
se existirem falhas, elas jamais ocorrerão por medo ou acídia,
mas por coragem e ousadia. Fonte: La Insignia. http://www.lainsignia.org |