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BRASIL • 6/3/2003 O possível e as possibilidades
O PT adaptou seu discurso e seu programa às reais condições
do Brasil, no momento em que decidiu jogar todas as fichas para
ganhar as eleições de 2002. Hoje, são tamanhas
as concessões e tantas as semelhanças com o que antes
se rejeitava que muitos podem concluir que estamos diante de um
novo tipo de transformismo, uma mudança de lado que, no limite,
representaria uma perda da substância reformadora inerente
à história deste partido. Mas estaria mesmo o PT cumprindo
esta transição nos dias de hoje? Ela já é
favas contadas? A política não vive sem paixão, engajamentos, valores e idéias. Há nela um tanto de "fanatismo", como diria Maquiavel. Mas política sem pragmatismo e senso de realidade é como sonho numa noite de verão: acorda-se de manhã saciado de fantasias, mas ao se levantar percebe-se que a vida segue seu rumo, impávida, modorrenta e repetitiva. Além do mais, a ação política não se faz em condições ótimas, escolhidas livremente, mas depende de circunstâncias históricas bem determinadas, que em boa medida limitam as escolhas, ainda que também possibilitem que não se tenha de começar sempre do zero, como se nenhum acúmulo tivesse sido registrado. Há, portanto, alguns "constrangimentos sistêmicos", digamos assim, em qualquer operação política ou governamental. As escolhas governamentais dos anos 1990 representaram, para o Brasil, a montagem de uma armadilha sutil. Em parte porque organizaram um consistente padrão sócio-cultural: uma hegemonia. Depois, porque o neoliberalismo inerente às suas resoluções "duras" - quer dizer, em termos de política econômica, de reforma do Estado, de política social - produziu efeitos que parecem ter se colado às estruturas sociais. Comprimem a passagem de um ciclo a outro, condicionando qualquer esforço de mudança de rota. Por último, há o sistema internacional, em tudo o que tem de imposição de regras de convivência, de império econômico e financeiro, de relações intergovernamentais, intercâmbios e recíprocos condicionamentos. Os anos 1990 nos legaram fatos que se tornaram tirânicos, como se tivessem chegado a se "naturalizar". Mas a política não existe para que os governantes se dobrem fatalisticamente aos fatos e desistam de se afirmar com altivez e combatividade diante deles. Afinal, os fatos também resultam de ações e opções humanas, refletem o entrechoque de interesses, as batalhas de hegemonia, os embates políticos e sociais. Não são uma força da natureza, por mais fortes que sejam. Se se está num contexto assim determinado, no qual a correlação de forças não é muito favorável, os problemas se acumulam e cada passo à frente requer apoios gigantescos e cuidados adicionais, pode-se imaginar as dificuldades com que se depara um governo interessado em imprimir outro padrão e sentido ao movimento pelas reformas. Um governo que não quer apenas reformar, como fizeram os governos da década passada, mas modificar o sentido e o alcance das reformas, que não quer apenas fazer bem o que for possível, mas organizar novas possibilidades, não pode ter vida fácil. Seu destino é caminhar por uma estreita faixa de equilíbrio. Ele não tem como ser frenético ou impetuoso, pois precisa contemporizar, compor e acomodar o tempo todo. Seu oxigênio é a democracia, e esta também lhe impõe certo ritmo, uma ritualística e um modo de fazer. Ainda quando beneficiado com a confiança do povo, como acontece hoje, ele caminha sobre brasas, atravessa desertos e zonas escaldantes, não tem trégua nem descanso. Os governos não são apenas os homens que os integram, mas também seus partidos, seguidores e aliados. Nem sempre o que seu núcleo estratégico vê e concebe é visto e entendido pelos demais. As seguidas manifestações de setores do PT contra posturas do governo Lula provam bem isto. Demonstram que as bases partidárias ainda não acompanham seus dirigentes e precisam ser, também elas, "educadas". Tem-se repetido à exaustão nos últimos meses que os governos são maiores que os partidos e não podem viver à sombra deles. É pura verdade. No caso do governo Lula, porém, não há como vê-lo se soltando do PT e de seus compromissos históricos, sob pena de perder substância e identidade. A questão está, portanto, em saber se partido e governo conseguirão equilibrar os diferentes embates em que estão envolvidos, fazendo com que cada frente de luta anime e alimente a outra. Marco Aurélio Nogueira. Fonte: La Insignia. http://www.lainsignia.org Fotografía: Beatriz de Pedro http://www.lainsignia.org/2002/diciembre/album7.htm |