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MÉXICO
• 12/3/2003
Comunicado contra a invasom do Iraque, do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena. Comando Geral do Exército Zapatista de Libertaçom Nacional.
Aos povos do mundo: Irmaos e irmás: Hoje, no mundo inteiro, realizam-se mobilizaçons para repudiar
a guerra dos Estados Unidos e da Gram Bretanha contra o povo do Iraque. Entom, queremos iniciar a nossa palavra saudando a todos os seres
humanos que, no mundo e em outros lugares do México, se manifestam
para dizer "Nom" à guerra do poderoso. Alá em cima, onde o dinheiro é Deus e dono, celebram
umha vitória que nada mais é a nom ser umha tramóia
pintada de sangue árabe que, nom devemos esquecer disso, é
sangue humano, ainda que os grandes monopólios dos meios de
comunicaçom queiram nos convencer do contrário. Alá em cima, o senhor dos meios esfrega as maos, acha que
poderá reinar sem que ninguém o desafie. Acha que o
principal objetivo desta guerra, a mundializaçom do medo, já
foi cumprido. Se o poder do dinheiro acha que venceu a humanidade é porque
olha só para si mesmo e para os seus clones ananos que rapidamente
se multiplicam na Organizaçom das Naçons Unidas e nos
vários governos do mundo, entre eles o governo do México. Agora que se festeja a queda de Bagdá, os governos que inicialmente
se opuseram à guerra descobrem o rosto quando negociam entre
si a divisom do botim. Porque guerra é negócio, e negócio é
o pós-guerra. E nengum empresário quer ficar de fora dos negócios
e aspira a ter ainda que sejam apenas algumhas migalhas do banquete
que o governo dos Estados Unidos prepara sobre o povo que, nos meios
de comunicaçom, é apresentado como derrotado e vencido. Mas o poder está equivocado. Está sempre equivocado. A sua guerra atual nom mundializou o medo, nom globalizou a submissom,
a nom ser entre a classe política. Nom, o que esta guerra tem internacionalizado é a indignaçom,
o rejeito, o protesto, o "Nom". De tal jeito que nom é só o "Nom" à
guerra a nos convocar. Estamos nos manifestando tamém para
fazer saber aos governos do mundo que nom temos medo e que nom estamos
vencidos. Contodo, devemos estar conscientes de que o atual banquete de morte
e destruiçom nom provoca só rejeito e indignaçom. O fundamentalismo que, usando como desculpa o Deus dos cristians,
leva adiante esta guerra nom fará outra cousa a nom ser parir
outros fundamentalismos. Na lógica do código genético do poder, o terror
é um filho siamês com duas cabeças, mas com o
mesmo passo: o da destruiçom. O caos de amanhá será o resultado da "nova orde
mundial" que, nestes dias terríveis e vergonhosos, conduziu
os mísseis "inteligentes" que caíram no Oriente
Médio. Nom há melhor image da "nova orde mundial" daquela
que é mostrada polos saques e o caos nas cidades "libertadas"
polas tropas estadunidenses e británicas. "Libertadas", é assi que os poderosos chamam as
cidades que hoje têm a geografia dos civis mortos e dos prédios
destruídos. Porque nom se deve esquecer que o argumento que
acompanhou Deus nesta guerra foi o da "liberdade". Mas ficou claro que a liberdade que nos oferece o poder, e todos
aqueles que o servem, é a de escolher entre vendermo-nos, rendermo-nos
ou morrer. "Vosté está livre", dizem os poderosos e
os seus governos; "pode escolher entre o garrote e a cenoura". E a classe política mexicana se apressou a dar-nos o exemplo,
disfarçado de "sensatez" e "prudência". Os partidos políticos oficiais (porque nom se deve esquecer
que existem organizaçons políticas que nom estam envolvidas
no jogo sujo dos governos) escolhem a cenoura. Nom lhes importa que a cenoura seja de plástico, como os ossos
que dam aos cachorros para entretê-los e para afiarem os dentes
a fim de morder os "estranhos". Hoje, na "nova orde mundial" que foi inaugurada com a guerra
no Iraque, os "estranhos" som todos os homes, mulheres,
moços, crianças e anciaos que nom se rendem. E os seres humanos que nom se rendem, é bom que ouçam
isso em Washington, continuam sendo a maioria. Durante os últimos anos disserom-nos que chamar de "imperialismo"
ou de "império" o desejo de conquista e destruiçom
que anima os poderosos nada mais era a nom ser "marxismo tresnoitado",
"saudade dos anos sessenta", "argumento pré-moderno". Contodo, sem que importe muito o nome que lhe dêm, o dinheiro
colocou na orde do dia todas as luitas rebeldes que se opoem a el. Porque acontece que puderom mudar a forma de nomear as cousas, e
as palavras puderom tratar ou nom de esconder o que nomeiam, mas o
feito irrefutável e brutal é que há um pequeno
grupo de poderosos que quer conquistar todo o planeta e colocá-lo
a seu serviço. E nom só isso, há tamém outros pequenos grupos
de poderosos que querem o mesmo. Nom importam as bandeiras que abrigam a uns e outros, porque o seu
estandarte comum continua sendo o do dinheiro. Mas se a guerra dos poderosos e mundial, mundial é tamém
a rebeldia. As mobilizaçons de hoje som contra a guerra do poderoso, seja
qual for o seu nome. Nom importa que o seu nome seja George W. Bush,
Tony Blair, José Maria Aznar, Vicente Fox... desculpem, quis
dizer, o casal presidencial, Diego Fernández de Cevallos, Jesus
Ortega o Manuel Bartlett. Nom importa que seja com a bandeira do partido republicano, do democrata,
do trabalhador, do conservador, do PRI, do PAN, do PRD ou dos ananos
mexicanos que, como dixo nom sei quem, tamém começarom
desde pequenos. Hoje a classe política mexicana trata de capitalizar o sentimento
de repúdio provocado por esta guerra, mas cuida de nom nomear
quem a perpetrou, por isso nom quigérom se manifestar diante
da embaixada estadunidense, para nom perderem os seus visados de turista
e para nom ofender quem realmente manda em terras mexicanas. Porque se os políticos mexicanos fingem consternaçom
pola guerra do Oriente Médio é, pura e siplesmente,
porque se derom conta do rejeito quase unánime da povoaçom
mexicana. E o "quase" debe-se aos empresários e aos comentaristas
de algumhas estaçons de rádio e televisom, cuja única
queixa é que a guerra demorou muito em simular a vitória. Foi um cálculo sujo e ruim a inspirar a posiçom da
classe política mexicana diante desta guerra. Vendo crescer o desencanto entre o povo mexicano em funçom
de a sua corrupçom e os seus crimes, os partidos políticos
esforçarom-se em protestar contra a guerra, ainda que sempre
afônicos na hora de se referir a quem manda. Agora o casal presidencial manifesta a sua desilusom porque o governo
estadunidense nom entendeu que a barganha do seu apoio era só
um esforço para recuperar alguns pontos nas pesquisas de popularidade. O PRI fijo o que sabe fazer muito bem: para cima, dizer "quem
sabe", e para baixo, aplaudir um método que reivindica
a sua longa história de autoritarismo, o mesmo que o mantivo
no poder por mais de 70 anos e o mesmo que o tirou del. O PAN tivo umha séria crise de identidade, porque entre os
seus dirigentes correu o boato de que se condenassem explicitamente
o governo dos Estados Unidos poderiam ser acusados de traiçom
à pátria. O PRD fijo um esforço digno de nota. Se continuar assi poderia
aspirar ao prêmio Nobel de alquimia biogenética, porque
conseguiria ser um clone capaz de sintetizar o PRI e o PAN. Os ananos, sem um lugar preciso, empenharom-se em correr de um lado
pra outro para serem vistos. Hoje, a classe política mexicana manifesta-se, supostamente,
contra a guerra, mas entre eles se di que nom poderiam deixar de aproveitar
desse dia para continuar as campanhas eleitorais. Talvez acham que nom temos memória e que vam poder nos enganar. Quando a classe política mexicana se uniu contra o reconhecimento
dos direitos e da cultura indígenas, nom garantiu só
a continuaçom da guerra contra os povos indígenas do
México. Ela construiu tamém um muro que a separa dos
cidadaos deste país. Por trás deste muro, os políticos repartem intrigas,
soldos e prestaçons, corruptelas e acobertamentos. Só a cada tanto, a cada processo eleitoral, se unem em cima
do muro para dizer-nos que podemos escolher, entre todos os clones,
quem queremos que nos represente e mande em nós. Alguns se perguntarom porque nom nos unimos à mobilizaçom
convocada polos senadores, argumentando que deixaríamos pra
trás nossas diferenças. Em primeiro lugar, porque nom podemos nos tornar cúmplices
do acobertamento daqueles que fam a guerra no México e fingem
estar horrorizados com a guerra em outro lugar do mundo. Os senadores disserom que se negavam a marchar se estes irmaos e
irmás o figessem. Foi assi que veio de alá de cima a
primeira vontade de romper umha marcha que podia ser unitária. É assi que nesta marcha estam os sujos, feios e maus da sociedade
mexicana, e com eles e elas estam os homes, mulheres, crianças,
moços e anciaos do Exército Zapatista de Libertaçom
Nacional. Recebam todos e todas vostés, nas minhas palavras, a saudaçom de respeito e admiraçom dos "malditos" do EZLN. Irmaos e irmás: Queremos agradecer as organizaçons políticas e sociais
que, junto a nós, convocarom esta marcha. tamém agradecemos
e saudamos a todas as pessoas sem organizaçom política
e social que tenham participado. Talvez sejamos muito poucos, e na conta fenícia nom pesemos
muito nas balanças prostituídas dos caga-tintas e caga-images
a serviço dos políticos. Mas eles sabem muito bem o
que 100 patriotas podem fazer por esta terra Talvez nesta marcha tenha mais de 100. Entom, no lugar de rir deveriam
se preocupar. Dizemos às organizaçons políticas e sociais
que hoje participamos desta marcha e das outras que se realizam em
outros lugares do México, que o EZLN nom pretende hegemonizar
e homogeneizar a rebeldia no México. Nós entendemos muito bem que a rebeldia tem muitas cores e
muitos caminhos. Oferecemos um espelho a todas estas organizaçons. Se nos respeitam,
receberam respeito. Durante muito tempo vinham-nos dizendo que a fragmentaçom
do movimento social é letal para a luita pola transformaçom
da sociedade. Quem di isso é porque pretende ser aquel que lidera e hegemoniza
o movimento, na maioria das vezes, para ir entregá-lo em troca
de um punhado de moedas ou, alegando conjunturas e condiçons
desfavoráveis, substituir a mobilizaçom com a concessom
e o acordo de cúpula. Nom sabemos se a pluralidade e a diversidade das organizaçons
políticas e sociais vai poder chegar a umha transformaçom
que é possível, que precisamos e merecemos. Mas sabemos
que a hegemonia, mesmo quando disfarçada de "unidade programática",
nom tem conseguido isso e, ao contrário, tem difundido o ceticismo
e o desencanto. A muito mencionada unidade da esquerda, para os zapatistas, nom pode
ser construída com um único critério, com umha
única estrutura que só encobre a mútua subtraçom
de ativistas e militantes, a antropofagia entre propostas políticas,
a disputa aberta para ver quem tem o discurso mais radical e a disputa
oculta para ver quem se vende polo melhor preço. As tentativas de unidade, construídas no afám da hegemonia,
só acabaram em rachas, divisons e rivalidades estéreis. A unidade é possível quando se respeita a pluralidade
e a diversidade. É possível quando, com este respeito de fondo, se constrói
umha agenda comum de discussom, nom de acordos. Desta discussom pode
nascer umha nova proposta na qual todos podemos nos reconhecer, sem
deixar de ser o que somos e sem abandonar as nossas posiçons
e pensamentos. A nossa idéia nom é a de umha organizaçom única,
mas si de um movimento com muitas organizaçons, com um acordo
básico, a resistência, e com umha bandeira comum, a da
rebeldia. Os poderosos e os seus adeptos de letras vencidas declararam o dia
11 de setembro de 2001 como divisor de água da história
moderna. Inclusive, dim que a guerra atual é produto deste
dia. Vemos agora que é esta guerra a que pode marcar o novo século. Isso depende da atitude que temos diante dela. Irmaos e irmás: Talvez alguns devem ter reparado que estamos fazendo umha mençom
especial dos moços, destacando-os entre os homes, as mulheres,
crianças e os anciaos. E agora enviamos umha saudaçom especial aos moços e
moças do México. Quase de forma simultánea à queda das primeiras bombas
sobre o território iraquiano, os moços, principalmente
os estudantes do ensino médio e superior, iniciarom as mobilizaçons.
A eles nom lhes importou o seu número, mas si o "Nom"
que levantarom. Nós zapatistas reconhecemos e saudamos a sensibilidade dos
moços mexicanos, seja qual for o nome que lhe dá identidade
e comunidade. Por estes caprichos das ondas hertzianas, umha transmissom de rádio
da Cidade do México chegou até às montanhas do
sudeste mexicano. Vinha de umha destas estaçons que falam a
maior parte do tempo do seu elevado índice de audiência.
Naqueles instantes, o locutor de turno estava recebendo o relato de
um repórter que cobria umha das muitas mobilizaçons
contra a guerra no Iraque diante da embaixada estadunidense. O locutor apenas deixou terminar ao repórter e, imediatamente,
começou a prodigar todo tipo de desqualificaçom contra
os manifestantes. "Som vándalos, anarquistas, delinqüentes",
comentou. E logo titubeou, porque parece que o seu vocabulário
de sinônimos era muito reduzido. Depois de gaguejar dixo: "som
novos", como se fosse o maior insulto e a pior desqualificaçom
que se poderia lançar contra alguém. "Som novos", disse com asco, com desprezo, com o desejo
de que os anti-distúrbios de López Obrador lhes dessem
um castigo por nom deixarem trabalhar em paz aos grandes magnatas
que têm os seus escritórios no Paseo de La Reforma, como
pedindo que a força pública os obrigasse a deixar de
ser moços. Oxalá nunca deixem de ser moços. Oxalá entendam que os calendários às vezes som só um disfarce para as claudicaçons e que, à exceçom das festas de aniversário, a idade nom conta. Irmaos e irmás: Aos moços, às mulheres, às crianças,
aos anciaos, a todas as cores com as quais se ilumina a humanidade,
dizemos que temos o direito de optar. Optar, esta é a liberdade, mas temos que construir as nossas
opçons, porque as que hoje nos som apresentadas têm como
pai o poder e como máe a ganáncia. Podemos optar por um mundo melhor, mais justo, mais bom, mas temos que luitar para construí-lo com justiça e dignidade, que som os dous pés com os quais a paz pode caminhar e derrotar a guerra. Democracia! Liberdade! Justiça! Desde as montanhas do sudeste mexicano. Polo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena.
Comando Geral do Exército Zapatista de Libertaçom Nacional Subcomandante Insurgente Marcos Este comunicado foi publicado no jornal La Jornada em 13 de abril
de 2003. |