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MÉXICO • 9/5/2003

Estratégias do governo de México contra o EZLN.

LulaConclusons do pesquisador Juan Manuel Sandoval Palácios, durante o primeiro Encontro Hemisférico Diante da Militarizaçom, realizado esta semana em San Cristóbal de las Casas.

Fox nom descarta a via militar para enfrentar o conflito em Chiapas: Sandoval.

San Cristóbal de las Casas, Chiapas, 09 de maio. A conduçom do conflito em Chiapas por parte do governo "mostra que o regime de (Vicente) Fox continua mantendo a saída militar como umha opçom", expressa o pesquisador Juan Manuel Sandoval Palácios, durante o primeiro Encontro Hemisférico Diante da Militarizaçom, realizado esta semana em San Cristóbal de las Casas.

"O Exército tem retomado posiçons na regiom zapatista. As patrulhas militares percorrem os caminhos, instalam controles, entram nas comunidades e interrogam aos labregos. Helicópteros e avions militares continuam sobrevoando as comunidades. As localidades em resistência vivem entre os patrulhamentos e a contínua ameaça de grupos de priistas ou de paramilitares". Sandoval afirma que "nos feitos, o governo de Vicente Fox tem adotado a mesma estratégia de contra-insurreiçom e endurecimento contra o Exército Zapatista de Libertaçom Nacional (EZLN) colocada em prática polo governo de Zedillo".

O cerco militar imposto vai "acompanhado por umha tática de saturaçom militar". A "sanha" que o governo federal revela contra o zapatismo "mostra a intoleráncia em relaçom a um movimento que contém germes de umha verdadeira democracia participativa", o exercício da soberania popular e um projeto econômico alternativo ao modelo neoliberal. "As tropas do governo mantêm as suas posiçons na selva e em Los Altos. A saída militar tem sido sempre umha opçom do governo, que continua reforçando sua visom autoritária ao considerar este conflito como um problema de segurança nacional".

No trabalho A anti-guerra à guerra da rede social do movimento zapatista: a nova estratégia de contra-insurreiçom do Pentágono, o tamém coordenador do Seminário Permanente dos Estudos dos cidadaos de origem mexicana que moram nos Estados Unidos e das Fronteiras aponta que os estadunidenses "outorgam ao México um lugar prioritário na segurança econômica e nacional. O governo estadunidense busca um controle absoluto das regions de fronteira, militarizando-as e aplicando nelas as estratégias da guerra de baixa intensidade e de guerra de redes sociais. Nesta perspectiva, vimos que o Estado mexicano tem enfrentado o conflito chiapaneco como um problema de segurança nacional que pom em risco a soberania do país". Isso "implica numha saída autoritária, quando o que se requer é umha saída política que reconheça as demandas do EZLN e do povo em geral".

As contra-ofensivas governamentais.

Fazendo história, Sandoval Palácios documenta que na preparaçom da contra-ofensiva político-militar governamental depois do levantamento se contou com a assessoria dos Estados Unidos. "Em 1994, o general Gordon Sullivan, chefe do Estado Maior do exército dos Estados Unidos, realizou duas visitas ao entom ministro mexicano da Defesa Nacional, Antonio Riviello Bazán. Propunha-se a recolher informaçons sobre o conflito chiapaneco bem como a vender artigos "nom-letais" para o Exército mexicano". Além disso, Sullivan veio oferecer ao México um aumento dos recursos do Programa Internacional de Educaçom e Treinamento Militar, que, em dois anos, passou de 400 mil para 700 mil dólares.

Mais adiante, se registraria a presença de "assessores militares" estadunidenses na regiom ocupada polo Exército federal em 9 de fevereiro de 1995: "A mencionada assessoria veio tamém da Guatemala (treinamento dos soldados mexicanos por parte dos kaibiles), e especialistas da Argentina, denunciados nos meios de informaçom do seu país. E ainda de israelenses, ou com técnicas israelenses aplicadas polos militares guatemaltecos".

No estudo detalha que "durante cerca de um ano, os efetivos militares em Chiapas foram aumentados para completar o cerco ao redor dos zapatistas". Através de portos e aeroportos entrou no país "uma tonelada após a outra", de armamento adquirido polo governo mexicano no exterior.

A ofensiva de fevereiro de 1995, como tem sido sublinhado por vários autores, se baseou na nova estratégia militar de guerra de baixa intensidade (GBI). Essencialmente, diz Sandoval, "uma doutrina para a contra-revoluçom", que se plasma no Manual de guerra irregular, operaçons de combate à guerrilha ou de restauraçom da ordem, publicado polo Ministério da Defesa Nacional em 1995.

"Este manual é a expressom de umha profunda metamorfose que a cúpula militar pôs em andamento em 1995 como produto direto deste conflito. De acordo com um documento confidencial elaborado pola SEDENA em 1995, no curto e médio prazo as forças armadas do país centrariam as suas atividades na contra-insurreiçom e na luita antinarcóticos", revela o autor. Para dita reestruturaçom se contou com o apoio material, assessoria e instruçom dos Estados Unidos. Sob a supervisom e com o treinamento do Pentágono, entre 1996 e 1997, foram criados os Grupos Aerotransportados das Forças Especiais (GAFE), unidades de elite especializada no ataque aéreo.

Muitas das camadas superiores têm recebido instruçom militar nos Estados Unidos e, a partir de 1º de janeiro de 1994, um número crescente de militares mexicanos tem recebido treinamento de contra-insurreiçom na Escola das Américas e em outras instalaçons militares estadunidenses". É neste contexto que o autor situa os crescentes apoios das forças armadas e policiais do México e de outros países da América Latina, e especificamente no caso de Chiapas, "um maior envolvimento militar nas táticas e equipamentos de contra-insurreiçom (de acordo com veteranos do Vietnam como Brian Wilson, e militares como Donald Schulz, especialista em América Latina do US Army War College)".

Guerra na rede: guerra à rede.

"Chiapas é um exemplo vivo da revoluçom que nom existiria sem umha rede de apoio internacional. Mas é possível que a rede tampouco existiria sem a experiência de Chiapas. É aqui onde, de forma mais clara, se configura o modelo: a revoluçom é a rede", cita o estudo da jornalista espanhola Pepa Roma (Xeque à globalizaçom. Como os novos movimentos sociais e alternativos criam a sua rede, Grijalbo-Mondadori, Barcelona, 2001). De acordo com esta autora, quase todos os atuais movimentos de luta aprenderam de Chiapas a importância de conectar-se à rede. E nom só através da internet, mas si de qualquer canal de comunicaçom com o exterior".

Diante do fenômeno de mídia e de redes que foi o zapatismo desde sua origem, a estratégia da guerra contra el nom poderia ignorar este aspecto. O governo do México "procura isolar cada vez mais os zapatistas, através de mecanismos que se inserem claramente na estratégia de contra-insurreiçom de contra-guerra à guerra da rede social".

Em a sua longa exposiçom, Sandoval Palácios descreve a ofensiva governamental que começou em fevereiro de 1995 e que aumentou a partir do ataque paramilitar em Acteal em 1997. Isso, somado à "eliminaçom da Comissom Nacional e Intermediaçom e à marginalizaçom da Comissom de Concórdia e Pacificaçom", permitiu ao governo "agir mais livremente, cercar, isolar, desestruturar, imobilizar e possivelmente aniquilar o EZLN, as suas organizaçons e frentes de apoio", no contexto de umha nova estratégia político-militar, chamada polos analistas e estrategistas estadunidenses John Arquillas e David Ronfeldt, da Rand Corporation (vinculada ao Pentágono), como 'guerra de rede', e, sobretudo no caso do movimento zapatista, como guerra de rede social". O movimento dos indígenas chiapanecos foi considerado polos estrategistas da Rand como "o novo paradigma para caracterizar os conflitos sociais na nova ordem mundial, umha vez que a guerra fria chegou ao fim".

Na análise do movimento zapatista que Arquillas e Ronfeldt fizeram para o Ministro da Defesa dos Estados Unidos, "a estratégia da guerra de rede social visa nom só o EZLN, mas todas as organizaçons, frentes, redes e indivíduos que integram a rede de apoio ao zapatismo".

Desta forma, a guerra de rede nom pode ser vista como a açom desenvolvida por "um novo ator social ou anti-social, sem que haja umha contra-guerra de rede para enfrentá-la. O conceito, de acordo com Arqillas e Ronfeldt (2001) "foi cunhado polo Subcomandante Marcos em 1999, quando afirmou que a "netwar" descrevia o movimento zapatista, e que "counter netwar" formaliza a estratégia de seus oponentes militares e paramilitares". Os autores deduziram que "tanto os zapatistas, como a liderança do Exército mexicano teriam lido o seu informe que analizava o movimento zapatista como um caso de guerra de rede social". Por a sua vez, no ano 2000, o alto comando militar mexicano teria manifestado "admiraçom polo conceito".

Com que grau de sucesso estas propostas podem ser aplicadas no caso do México?, se perguntam os pesquisadores estadunidenses. "O governo, o Exército, o Partido Revolucionário Institucional, e agora o Partido de Acçom Nacional enfrentam dificuldades para combater um conjunto de atores entrelaçados através de redes". O governo tivo que organizar as suas próprias redes entre órgaos e governos "para prevalecer diante das redes pró-zapatistas". No caso de Chiapas, os militares "têm respondido de forma inovadora, aprimorando a organizaçom e a atuaçom de pequenas unidades e ligando-as em redes em toda a regiom".

Estes mesmos estrategistas colocam que "para garantir que a guerra de rede nom afete a estabilidade ou a capacidade de transformaçom do México, o governo deverá melhorar a sua capacidade de livrar umha contra-guerra de rede", sem descuidar da "imperiosa necessidade de manter um ritmo confiável de reformas".

Nesta perspectiva, Juan Manuel Sandoval Palácios pondera "que a contra-guerra à guerra da rede social que o governo mexicano leva adiante está centrada em analisar e conter, isolar, desestruturar, imobilizar e ainda aniquilar as redes sociais que som parte do chamado movimento zapatista". Contra elas se levam adiante acçons e táticas, "desde as clássicas de corte contra-insurrecional do conflito de baixa intensidade, até campanhas de desinformaçom, de espionage de organizaçons nom governamentais financiadas polo governo para contrapô-las aos grupos independentes, aos quais se tenta pôr freio e controle".

Fonte:

Hermann Bellinghausen. La Jornada, 10/05/2003.