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MÉXICO
• 10/5/2003
O mundo: sete pensamentos em maio de 2003.
Subcomandante Insurgente Marcos. -Introduçom. Na medida em que os calendários do Poder se vam deteriorando
e as grandes corporaçons dos meios de comunicaçom titubeiam
entre o ridículo e as tragédias protagonizadas e promovidas
pola classe política mundial, alá em baixo, no grande
e extenso alicerce da cambaleante Torre de Babel moderna, os movimentos
nom param e, mesmo que ainda balbuciem, começam a recuperar
a palavra e a sua capacidade de ser espelho e cristal. Enquanto alá
em cima se decreta a política do desencontro, no sótao
do mundo os outros encontram a si mesmos e ao outro que, sendo diferente,
é outro de baixo. Como parte desta construçom da palavra espelho e cristal,
o Exército Zapatista de Liberaçom Nacional retomou os
diálogos com movimentos e organizaçons sociais e políticas
no mundo inteiro. Inicialmente, trata-se de ir construindo umha agenda
comum de discussom com irmans e irmás do México, Itália,
França, Alemanha, Suíça, Estado Espanhol, Argentina
e Uniom Americana. Nom se pretende estabelecer acordos políticos e programáticos,
nem tentar umha nova versom da Internacional. Tampouco se trata de
unificar conceitos teóricos ou uniformizar concepçons,
mas si de encontrar e/ou construir pontos comuns de discussom. Algo
assi como construir imagens teóricas e práticas vistas
e vividas a partir de diferentes lugares. Como parte deste esforço de encontro, o EZLN apresenta agora
estes 7 pensamentos. O feito de "localizá-los" num
horizonte de espaço e tempo significa, de nossa parte, um reconhecimento
de nossas limitaçons teóricas, práticas e, sobretodo,
de visom universal. Esta é a nossa primeira contribuiçom
à construçom de umha Agenda mundial de discussom. Agradecemos a revista mexicana Rebeldia que tem abertas as suas páginas a estes pensamentos. Do mesmo jeito, agradecemos as publicaçons que na Itália, França, Estado Espanhol, Uniom Americana e América Latina figérem o mesmo. -1. Teoria. O lugar da teoria (e da análise teórica) nos movimentos
políticos e sociais costuma ser considerado óbvio. Contodo,
o que é evidente costuma agachar um problema, neste caso: o
dos efeitos de umha teoria numha prática e o "rebote"
teórico desta última. E nom só isso, o problema
da teoria é tamém o problema de quem produz esta teoria. Nom igualo a noçom de "teórico" ou "analista
teórico" à de "intelectual". Esta última
é mais ampla. O teórico é um intelectual, mas
o intelectual nom sempre é um teórico. O intelectual (e, portanto, o teórico) sente que tem o direito
de opinar sobre os movimentos. nom é o seu direito, é
o seu dever. Alguns intelectuais vam mais além e se transformam
nos novos "comissários políticos" do pensamento
e da acçom, e distribuem títulos de "bom"
e "mau". O seu "julgamento" tem a ver com o lugar
no qual estam e com o lugar no qual aspiram estar. Nós achamos que um movimento nom deve "devolver"
os juízos que recebe, e classificar os intelectuais como "bons"
ou "maus", de acordo com a forma pola qual eles classificam
o movimento. O anti-intelectualismo nada mais é a nom ser umha
própria apologia incompreendida, e, como tal, define um movimento
como "infantil". Nós acreditamos que a palavra deixa umha marca, as marcas
definem rumos, os rumos implicam definiçons e compromissos.
Aqueles que comprometem a sua palavra a favor ou contra um movimento,
nom só têm o dever de dizê-la, como tamém
o de "afiá-la" pensando em os seus objetivos. "A
favor de que?" e "contra o que?" som perguntas que
devem acompanhar a palavra. nom para calá-la ou baixar o seu
volume, mas si para completá-la e torná-la efetiva,
ou seja, para que se ouça o que se fala por quem deve ouvi-la. Produzir teoria a partir de um movimento social ou político
nom é a mesma cousa do que fazer isso a partir da academia.
E nom digo "academia" no sentido de assepsias ou "objetividade"
científica (inexistentes); mas só para assinalar o lugar
de um espaço de reflexom e produçom intelectual "fora"
de um movimento. E "fora" nom quer dizer que nom haja "simpatias"
ou "antipatias", mas si que esta produçom intelectual
nom se dá a partir do movimento, mas si sobre el. assi, o analista
acadêmico avalia e julga cousas boas e ruins, acertos e erros
dos movimentos passados e presentes, e, além do mais, arrisca
profecias sobre trajetos e destinos. Outras vezes, um movimento supre o seu espontaneismo com o apadrinhamento
teórico da academia. A soluçom costuma ser mais prejudicial
do que a falta. Quando a academia se engana, "esquece";
quando o movimento se engana, fracassa. Às vezes, a direçom
de um movimento procura um "corte teórico", ou seja,
algo que avalize e dê coerência à sua prática,
e procura a academia para se abastecer dela. Nestes casos, a teoria
nada mais é a nom ser umha apologia acrítica com um
toque de retórica. Nós acreditamos que um movimento deve produzir a sua própria
reflexom teórica (atençom: nom a sua apologia). Nela
pode incorporar o que é impossível a um teórico
de escritório, a saber, a prática transformadora deste
movimento. Nós preferimos ouvir e discutir com aqueles que
analisam e refletem teoricamente em e com os movimentos ou organizaçons,
e nom fora deles ou, o que é pior, às custas destes
movimentos. Contodo, nos esforçamos para ouvir todas as vozes,
prestando atençom nom a quem fala, mas si a partir de onde
fala. Em as nossas reflexons teóricas, falamos do que vemos como
tendências, nom dos feitos consumados, nem inevitáveis.
Tendências que nom só nom têm se transformado em
algo homogêneo e hegemônico (ainda), mas si que podem
(e devem) ser revertidas. A nossa reflexom teórica enquanto zapatistas nom costuma ser
sobre nós mesmos, mas si sobre a realidade na qual nos movemos.
E, além do mais, é de caráter aproximado e limitado
no tempo, no espaço, nos conceitos e na estrutura destes conceitos.
Por isso, no que dizemos e fazemos, rechaçamos as pretensons
de universalidade e eternidade. As respostas às perguntas sobre o zapatismo nom estam em as
nossas reflexons e análises teóricas, mas si em a nossa
prática. E, no nosso caso, a prática tem umha forte
carga moral, ética. Ou seja, tentamos (nom sempre da forma
acertada, claro) umha acçom que nom só esteja de acordo
com umha análise teórica, como tamém, e sobretodo,
de acordo com o que consideramos que é nosso dever. Tratamos
de ser coerentes, sempre. Talvez por isso nom somos pragmáticos
(outra forma de dizer "uma prática sem teoria e sem princípios"). As vanguardas sentem o dever de dirigir algo o alguém (e neste
sentido guardam muitas semelhanças com os teóricos da
academia). As vanguardas se proponhem a conduzir e trabalhar para
isso. Algumas estam até dispostas a pagarem os custos dos erros
e desvios da sua acçom política. A academia nom. Nós sentimos que o nosso dever é iniciar, continuar,
acompanhar, encontrar e abrir espaços para algo e para alguém,
incluídos nós. O percorrer, até meramente enunciativo, das diferentes resistências
numha naçom ou no planeta nom é só um inventário,
mas aí se adivinham, mais do que presentes, futuros. Os que som parte deste percurso e de quem faz o inventário,
podem descobrir cousas que aqueles que somam e subtraem nos escritórios
das ciências sociais nom conseguem ver, saber, que som importantes,
si, o caminhante e o seu passo, mas o que importa é sobretodo
o caminho, o rumo, a tendência. Ao assinalar e analisar, ao
discutir e polemizar, nom fazemos isso só para saber o que
acontece e entendê-lo, como tamém, para tratar de transformá-lo. A reflexom teórica sobre a teoria se chama "Metateoria". A Metateoria dos zapatistas é a nossa prática. -2. O Estado Nacional e a Polis. No calendário agonizante dos Estados Nacionais, a classe política
era quem tinha o poder de decisom. Um Poder que si levava em consideraçom
o poder econômico, ideológico, social, mas mantinha umha
relativa autonomia diante deles. Esta autonomia relativa dava-lhe
a capacidade de "ver mais além" e conduzir as sociedades
nacionais para este futuro. Neste futuro, o poder econômico
nom só continuava sendo poder, como era mais poderoso. Na arte da política, o artista da polis, o governante, era
um condutor especializado, conhecedor das ciências e dar artes
humanas, incluída a militar. A sabedoria do governar consistia
no adequado manejo dos vários recursos de conduçom do
Estado. O feito de recorrer mais ou menos a um ou a vários
destes recursos, definia o estilo de governo. Administraçom
balanceada, política e repressom, umha democracia avançada.
Muita política, pouca administraçom e umha repressom
oculta, um regime populista. Muita repressom e nada de política
e administraçom, umha ditadura militar. Naqueles tempos, na divisom internacional do trabalho, homes (ou
mulheres) de Estado como governantes eram típicos dos países
de capitalismo desenvolvido; os países de capitalismo deformado
tinham governos de gorilas. As ditaduras militares representavam o
verdadeiro rosto da modernidade: um rosto animal, sedento de sangue.
As democracias nom eram só umha máscara que escondia
esta essência brutal, mas tamém preparavam as naçons
para umha nova etapa onde o dinheiro encontraria melhores condiçons
de crescimento. A globalizaçom, ou seja, a mundializaçom do mundo,
nom é marcada só pola revoluçom tecnológica
digital. A sempre presente vontade internacionalista do Dinheiro encontrou
meios e condiçons para destruir os entraves que lhe impediam
de realizar a sua vocaçom: conquistar todo o planeta com a
sua lógica. Alguns destes entraves, as fronteiras e os Estados
Nacionais, sofreram umha guerra mundial (a IV). Os Estados Nacionais
se deparam com esta guerra quando faltam recursos econômicos,
políticos, militares, ideológicos e, como o demonstram
as guerras recentes e os tratados de livre comércio, de defessas
jurídicas. A história nom terminou com a queda do Muro de Berlim e a
derrubada do campo socialista. A Nova Ordem Mundial continua sendo
um objetivo na ordem de batalha do dinheiro, mas no campo jaz, agonizando
e esperando a chegada de ajuda, o Estado Nacional. Chamamos "sociedade do Poder" o coletivo de direçom
que suplantou a classe política no tomar as decisons fundamentais.
Trata-se de um grupo que nom detém só o poder econômico
e nom só numha naçom. Mas que, aglutinada organicamente
(segundo o modelo da "sociedade anônima"), a "sociedade
do Poder" se forma ao partilhar metas e métodos comuns.
Ainda em processo de formaçom e consolidaçom, a "sociedade
do Poder" trata de encher o vazio deixado polos Estados Nacionais
e suas classes políticas. A "sociedade do Poder"
controla instituiçons financeiras (e, de conseqüência,
países inteiros), meios de comunicaçom, corporaçons
industriais e comerciais, centros educacionais, exércitos e
polícias públicas e privadas. A "sociedade do Poder"
deseja um Estado Mundial com um governo Supranacional, mas nom trabalha
na sua construçom. A globalizaçom tem sido umha experiência traumática
para a humanidade, si, mas, sobretodo, para a sociedade do Poder.
Aflita polo esforço de passar, sem mediaçom alguma,
dos bairros ou comunidades à Hiper-Polis, do local ao global,
e enquanto se constitui o governo Supranacional, a sociedade do Poder
se refugia, outra vez, num Estado Nacional que desfalece. O Estado
Nacional da Sociedade do Poder só aparenta um vigor que tem
muito de esquizofrenia. Um holograma, é isso que é o
Estado Nacional nas metrópoles. Mantido por décadas como referencial de estabilidade, o Estado
Nacional tende a deixar de existir, mas o seu holograma continua sendo
alimentado polos dogmas que luitam para preencher o vazio produzido
nom só pola globalizaçom, mas tamém reafirmado
por ela. Para o Poder, a mundializaçom do mundo no tempo e
no espaço é algo que ainda nom foi digerido. Os "outros"
já nom estam em "outro" lugar, mas si por toda parte
e a qualquer hora. E para o Poder o "outro" é umha
ameaça. Como enfrentar esta ameaça? Levantando o holograma
da Naçom e denunciando o "outro" como agressor. Nom
foi um dos argumentos do senhor Bush para as guerras no Afeganistam
e no Iraque o feito de ambos ameaçarem a "naçom"
norte-americana? Mas, fora da "realidade"criada pola CNN,
as bandeiras que tremulam em Kabul e Bagdá nom som as das listas
e estrelas, mas si as das grandes corporaçons multinacionais. No holograma do Estado Naçom, a falácia por excelência
da modernidade, ou seja, "a liberdade individual" está
presa num presídio que nom é menos opressor polo feito
de ser global. O indivíduo se deforma de tal jeito que nem
a imagem dos "heróis" de antano pode oferecer-lhe
a menor esperança de sobressair. O "selfmade man"
nom existe mais, e, como é impensável pensar em "selfmade
corporation", a expectativa social está à deriva.
Qual é a esperança? Voltar à disputa pola rua,
polo bairro? Tampouco a fragmentaçom tem sido tam impiedosa
e descontrolada que nem mesmo estas unidades mínimas de identidade
se mantêm estáveis. A família-casa? Onde e como?
Se a televisom entrou como rainha pola porta principal, a internet
entrou como golpista pola brecha do espaço cibernético.
Dias atrás, quase cada casa do planeta foi invadida polas tropas
britanicas e norte-americanas que ocuparam o Iraque. Onde estam os heróis da invasom do Afeganistam? Onde os da
ocupaçom do Iraque? Quer dizer, o 11 de setembro de 2001 teve
os seus heróis, os bombeiros e os habitantes de Nova Iorque
trabalhando para resgatar as vítimas do delírio messianico.
Mas estes heróis reais nom servem ao Poder, por isso foram
rapidamente esquecidos. Para o Poder, o "herói" é
aquele que conquista (ou seja, destrói), nom aquele que salva
(ou seja, constrói). A imagem do bombeiro coberto de cinzas,
trabalhando entre as torres gêmeas de Nova Iorque, foi substituída
pola do tanque de guerra puxando a estátua de Hussein em Bagdá. A polis moderna (uso o termo "polis" no lugar de "cidade"
para sublinhar que me refiro a um espaço urbano de relaçons
econômicas, ideológicas, culturais, religiosas e políticas)
só tem da clássica (de Platom) a imagem superficial
e frívola das ovelhas (o povo) e do pastor (o governante). Mas a modernidade revolveu completamente a imagem platônica.
Trata-se agora de um complexo industrial: algumhas ovelhas se tosquiam
enquanto outras se sacrificam para obter comida, as "doentes"
som isoladas, eliminadas e "queimadas" para que nom contaminem
o resto. Mas acontece que o "administrador" (o governante-pastor)
enlouqueceu e decidiu sacrificar todas as ovelhas, ainda que o dono
nom possa comer todas elas... e mesmo que nom sobrem ovelhas para
tosquiar e nem para sacrificar amanhá. O velho político,
o de antigamente (e nom me refiro ao de "antes de Cristo",
mas si ao do final do século XX), se especializava em manter
as condiçons para o crescimento do rebanho e para que houvesse
ovelhas para umha e outra cousa, e, além disso, para que as
ovelhas nom se rebelassem. O neopolítico já nom é um pastor "culto",
é um lobo bobalhom e ignorante (que nem sequer se esconde por
trás de umha pel de cordeiro) que se conforma em comer parte
do rebanho que lhe cedem, mas que abandonou as suas tarefas fundamentais.
O rebanho nom tardará a desaparecer... e a se rebelar. Seria possível pensar que o que está em jogo nom é
"humanizar" o curral-fábrica-matadouro da polis moderna,
mas si de destruir esta lógica, arrancando de si a pel de ovelha
e, sem ovelhas, descobrir que o "pastor-carniceiro-tosquiador"
nom só é inútil como estorva? A lógica dos Estados Nacionais era (em grandes linhas): umha
polis-cidade aglutina um território (e nom o contrário),
umha província aglutina umha série de polis, umha naçom
aglutina umha série de províncias. Logo, a polis-cidade
era a célula básica do Estado Naçom e a polis-capital
impunha sua lógica ao resto das polis. Havia entom umha espécie de causa comum, um ou vários
elementos que aglutinavam esta Polis dentro de si mesma, assi como
havia elementos que aglutinavam o Estado Naçom (território,
língua, moeda, sistema jurídico-político, cultura,
história, etc.). Estes elementos têm sido corroídos
e dinamitados (muitas vezes nom em sentido figurado) pola globalizaçom. Mas o que dizer da polis durante o atual declínio (quase até
o desaparecimento) do Estado Nacional? E, o que veio primeiro? A Polis
ou o Estado Nacional? O desgaste do primeiro ou do segundo? nom importa,
polo menos polo que vou dizer agora. Se a fragmentaçom (e,
de conseqüência, o desaparecimento tendencial) do Estado
Nacional se deve à fragmentaçom da polis ou vice-versa,
nom é o tema sobre o qual vou falar. Como no Estado Nacional, na Polis tem se extraviado o que a aglutinava.
Cada Polis nada mais é a nom ser umha fragmentaçom desordenada
e caótica, umha superposiçom de polis que nom só
som diferentes entre si, mas que, nom poucas vezes, som contrárias. O Poder do Dinheiro exige um espaço especial que nom seja só espelho de sua grandeza e bem-estar, mas que, além disso, o proteja das "outras" polis (os dos outros) que estam ao seu redor e a "ameaçam". Estas "outras" polis nom som parecidas às comunidades bárbaras de antigamente. A Polis do Dinheiro trata de incorporá-las à sua lógica
e precisa delas, mas, ao mesmo tempo, tem medo delas. Onde antes havia um Estado Nacional (ou disputando ainda o espaço
com el) há agora um acúmulo desordenado de Polis. As
Polis do Dinheiro que existem polo mundo som as "casas"
da "sociedade do Poder". Contodo, onde antes havia um sistema
jurídico e institucional que regulava a vida interna dos Estados
Nacionais e as relaçons entre eles (estrutura jurídica
internacional) agora nom há nada. O sistema jurídico internacional é obsoleto, e o seu
lugar está sendo ocupado polo sistema "jurídico"
espontaneo do Capital: a concorrência brutal e impiedosa com
qualquer meio, entre os quais, a guerra. O que som os programas de segurança pública das cidades
a nom ser a proteçom dos que têm todo diante dos que
nom têm nada? "Mutatis mutandi", os programas de segurança
nacional já nom som nacionais diante das outras naçons,
mas si contra todo e em qualquer lugar. A imagem da cidade cercada
(e ameaçada) por cinturons de miséria e a imagem da
naçom hostilizada por outros países começaram
a se transformar. A pobreza e a inconformidade (estas "outras"
que nom têm o bom gosto de desaparecer) já nom estam
na periferia, mas podem ser vistas si quase em qualquer lugar das
cidades... e dos países. O que sublinho é que o "reordenar", praticado nos
governos da polis, destes fragmentos como ensaio ou "adestramento"
para o reordenar nacional, é inútil. Porque o que está
em jogo, mais do que reordenar, é isolar os fragmentos "nocivos"
e atenuar o impacto que podem ter suas reclamaçons, luitas
e resistências na polis do dinheiro. Quem governa a cidade, só administra o processo de fragmentaçom
da polis, à espera de passar a administrar o processo de fragmentaçom
nacional. A privatizaçom do espaço nas cidades nada mais é
a nom ser o medo violando as suas próprias disposiçons.
A polis tem se transformado num espaço anárquico de
ilhas. A "convivência" entre os poucos é possível
polo medo comum que eles têm do "outro". Vivam as
ruas privadas! Viram as colônias privadas, as cidades, as províncias,
as naçons, o mundo... todo privado, ou seja, isolado e protegido
do "outro". Mas o vizinho que tem posses nom demorará
a ser um "outro". Um mundo onde nom caiba nengum mundo, nem sequer o próprio. Este é o projeto da Hiper-Polis que já se levanta sobre os escombros do Estado Naçom. -3. A política. Nom existem mais causas nacionais que aglutinem as polis, as naçons,
as sociedades? Ou nom há políticos capazes de levantar
estas causas? O descrédito da política é mais
do que isso: tem ódio e rancor. O cidadam comum está
passando, tendencialmente, da indiferença diante dos atropelos
da classe política, a um repúdio que adquire formas
cada vez mais "expressivas". O "rebanho" resiste
à nova lógica. O político de antigamente definia a tarefa comum. O moderno
tenta e fracassa, por que? Talvez porque el mesmo tem lavrado a sua
falta de prestígio ou, melhor, mais do que prostituir umha
causa tem prostituído umha acçom. Carente de umha realidade como ponto de referência, a classe
política moderna fabrica para si um holograma nom do tamanho
de as suas aspiraçons, mas si do tamanho do seu calendário
atual: quem governa um povoado nom tem renunciado a governar umha
cidade, umha província, umha naçom, o mundo inteiro,
só que é o seu hoje a determinar um povo... e tem que
esperar as próximas eleiçons para o passo seguinte. Se antes o Estado Nacional tinha a capacidade de "enxergar mais
além" e projetar as condiçons necessárias
para que o capital se reproduzisse "in crescendo" e para
ajudá-lo a sair das suas crises periódicas, a destruiçom
das suas bases fundamentais impede-lhe de dar conta desta tarefa. Se o dinheiro foi a dinamite, os "operários" da
demoliçom foram os políticos. Ao destruir as bases do
Estado Nacional, a classe política tradicional destruiu tamém
a sua desculpa: agora os todo-poderosos atletas da política
olham para si surpresos e incrédulos... um comerciante imbecil,
sem nengumha noçom das artes do Estado, nem sequer os tem derrotado,
siplesmente os suplantou. A liberdade do mercado sofreu umha metamorfose terrível: agora
vosté é livre de escolher a que centro comercial ir,
mas a loja é a mesma e a marca do produto tamém. A liberdade
falaz originária da tirania da mercadoria, "livre oferta
e livre procura" têm-se feito anaquinhos. Do mesmo jeito, a coluna vertebral da acçom governamental,
a Razom de Estado, nom serve mais, agora é a Razom de Mercado
a dirigir a política. Para que empregar políticos se
os mercadólogos entendem melhor a nova lógica do Poder? O político, ou seja, o profissional do Estado, foi suplantado
polo gerente. assi, a visom de Estado mistura-se com a visom de mercadotecnia
(o gerente nada mais é a nom ser o capataz de antano, que "acredita"
firmemente que o sucesso da empresa é o seu próprio
sucesso) e o horizonte se torna menor, nom só em distancia,
tamém em a sua dimensom. Os deputados e senadores já nom fam leis, este trabalho é
desempenhado polos "lobbys" de assessores e consultores. Órfãos e viúvos, os políticos tradicionais
e os seus intelectuais arrancam os cabelos (os que ainda têm)
e, vez por outra, ensaiam novas desculpas para oferecê-las no
mercado de idéias: é inútil, aí sobram
vendedores e nom há nengum comprador. Procurar a classe política tradicional como "aliada"
na luita de resistência é um bom exercício...
de saudade. Procurar os neopolíticos é um sintoma de
esquizofrenia. alá em cima, nom há nada a fazer, a nom
ser julgar que, talvez, se pode fazer algo. Há quem se dedica a imaginar que o leme existe e a disputar a sua posse. Há quem procura o leme, certo de que ficou em algum lugar. E há quem fai de umha ilha nom um refúgio para a auto-satisfaçom, mas si um barco para se encontrar com outra ilha e com outra e com outra... -4. A guerra. No estresse pós-moderno da sociedade do Poder, a guerra é
o divam. A catarse de morte e destruiçom alivia, mas nom cura.
As crises atuais som piores do que as do passado, e, de conseqüência,
a soluçom radical que o Poder dá pra elas, a guerra,
é pior do que as de antano. Na história da consolidaçom do Poder, a convivência
humana transformou-se em coexistência. E esta em guerra. O par
dominante-dominado define agora a comunidade mundial e pretende ser
o novo critério de "humanidade" inclusive para os
fragmentos mais dispersos da sociedade global. A lógica do mercado (lucros cada vez maiores e a qualquer
custo) se impom à velha lógica da guerra (destruir a
capacidade de combate do oponente). A legislaçom internacional,
entom, atrapalha e, ou deve ser ignorada, ou deve ser destruída.
Acabou-se o tempo das justificativas plausíveis, agora nem
sequer se dá muita ênfase às justificativas "morais"
e inclusive "políticas" da guerra, os organismos
internacionais som monumentos inúteis e onerosos. Para a sociedade do Poder, o ser humano pode ser cliente ou delinqüente.
Para incluir o primeiro e eliminar o segundo, o político dá
um rosto legal à violência ilegítima do Poder.
A guerra já nom precisa de leis que a "justifiquem"
ou "avalizem", basta que os políticos a declarem
e assinem as ordes. Se o governo dos Estados Unidos tem se outorgado
o papel de "polícia" da Hiper-Polis, temos que nos
perguntar que ordem quer manter, que propriedade deve defender, que
delinqüentes deve prender e que lei dá coerência
e ordem ao seu agir. Ou seja, quais som os "outros" frente
aos quais a Sociedade do Poder deve se proteger. Para conduzir umha guerra, nom há pior general do que um militar,
por isso, antigamente, os grandes generais, os vencedores das guerras
(nom só os que luitam nas batalhas) eram políticos,
homes de Estado. Mas se já nom há mais destes, entom,
quem está dirigindo a batalha atual da conquista mundial? Duvido
que alguém, na sua sam consciência, pode sustentar que
Bush ou Rumsfeld dirigiram a guerra no Iraque. De forma tal que, ou som militares os que dirigem ou nom som militares.
Se o forem, o resultado poderá ser visto em breve. O militar
nom se dá por satisfeito até que nom destrói
totalmente o seu oponente. Totalmente, ou seja, nom derrotá-lo,
mas si fazê-lo desaparecer, acabar com el, aniquilá-lo.
Deste jeito, a soluçom das crises só é o prelúdio
de umha crise maior, de um horror que é impossível descrever
com palavras. Se nom som militares, entom, quem dirige? As corporaçons,
poderia se responder. Mas estas têm lógicas que se sobrepoem
às dos indivíduos e os conduzem. Como um ente com vida
e inteligência própria, a corporaçom ensina aos
seus membros a ir numha determinada direçom. Qual? A do lucro.
Nesta lógica, o dinheiro se dirige onde obtém melhores
condiçons de lucro rápido, crescente e contínuo.
Entom, irá se dirigir onde há menos ou onde há
mais? si, tendencialmente, a corporaçom irá contra outra
corporaçom. O desfecho da guerra no Iraque resolverá a crise que enfrentam
as grandes corporaçons? nom, ou, polo menos, nom de imediato.
O efeito anulador de um conflito para as expectativas do Estado-Nacional-Com-Aspiraçons-A-Ser-Supracnacional
tem a duraçom de um spot de televisom. "Já ganhamos no Iraque", diram os cidadans dos Estados Unidos, "E agora? Outra guerra? Aonde? É esta a nova ordem mundial? umha guerra por toda parte a qualquer hora, interrompida só polos comerciais?" -5. A Cultura. Prostrada no divam da guerra, a sociedade do Poder confunde os seus
complexos e fantasmas. Uns e outros têm muitos nomes e muitos
rostos, mas um denominador comum: "o outro". Este "outro"
que, até antes da globalizaçom, estava longe no tempo
e no espaço, mas que a construçom desordenada da Hiper-Polis
trouxo para o "backyard" o quintal dos fundos da sociedade
do Poder. A cultura do "outro" torna-se espelho odiado. Mas nom porque
reflete o poder na sua crueldade desumana, mas si porque conta a história
do "outro". O diferente que nom só nom depende do
"eu"do Poder, mas que tem tamém sua própria
história e esplendor sem sequer ter se dado conta da existência
do "eu" ou ter suposto seu futuro aparecimento. Na Sociedade do Poder, o fracasso do homem na convivência,
o seu ser no ser coletivo, oculta-se por trás do sucesso individual.
Mas este último, pola sua vez, esconde que este sucesso é
possível pola destruiçom do outro, do ser coletivo.
Durante décadas, no imaginário do Poder, o coletivo
ocupou o lugar do mau, arbitrário, enraivecido, cruel, implacável.
O "outro" é o rosto do rebelde Lúcifer na
nova "Bíblia" do Poder (que nom prega a redençom,
mas si a submissom) e é necessário expulsá-lo
do novo paraíso. No papel da espada de fogo, as "bombas
inteligentes". Destruir a cultura do "outro" é a forma mais contundente
de eliminá-lo. O saque das riquezas culturais no Iraque nom
foi produto da desatençom ou do desinteresse das tropas de
ocupaçom. Foi mais umha acçom militar do plano de guerra. Nas grandes guerras, os grandes tiranos e genocidas dedicam esforços
especiais à destruiçom cultural. A semelhança
entre a fobia e a cultura de Hitler e a de Bush nom se deve ao feito
deles manifestarem sintomas comuns de loucura. A semelhança
está nos projetos de mundializaçom que animaram o primeiro
e dirigem o segundo. A cultura é umha das poucas cousas que ainda mantêm respirando o Estado Nacional. A eliminaçom da cultura será o tiro de misericórdia. Ninguém irá participar do funeral, e nom por falta de conhecimento, mas si de "rating". -6. Manifestos a manifestaçons. O ato guerreiro que funda o novo século nom é o desmoronamento
das torres gêmeas, nem tampouco a queda sem graça e sem
espetáculo da estátua de Hussein. O século XXI
arranca com o "NOM À GUERRA" globalizado que devolveu
à humanidade a sua própria essência e a aglutinou
ao redor de umha causa. Como nunca antes na história da humanidade,
o planeta foi sacudido por este "NOM". De intelectuais de todos os tamanhos, a moradores analfabetos dos
cantos ignorados da terra, o "NOM" transformou-se numha
ponte que uniu comunidades, povoados, vilas, cidades, províncias,
países, continentes. Em manifestos e manifestaçons,
o "NOM" buscou a demanda da razom diante da força. Ainda que, em parte, este "NOM se" tenha apagado com a
ocupaçom de Bagdá, há mais esperança do
que impotência no seu eco. Contodo, alguns se refugiarom no
campo teórico e mudarom a pergunta "o que fazer para deter
a guerra?", para esta outra: "Onde será a próxima
invasom?". Há quem defende, ingenuamente, que a declaraçom dos
Estados Unidos de que nom faram nada contra Cuba demonstra que nom
se deve temer umha reaçom norte-americana contra a ilha caribenha.
Os desejos do governo norte-americano de invadir e ocupar Cuba som
reais, mas som algo mais do que desejos. Som planos que já
têm trajetos, tempos, contingentes, etapas, objetivos parciais
e sucessivos. Cuba nom é só um território a conquistar,
é, sobretodo, umha afronta. Um amassado intolerável
no luxuoso carro da modernidade neoliberal. E os marines som os funileiros.
Se estes planos se concretizarem, veremos logo, como agora no Iraque,
que o objetivo nom era derrotar o senhor Castro Ruz, nem sequer impor
umha mudança de regime político. A invasom e ocupaçom de Cuba (ou de qualquer outro ponto da
geografia mundial) nom precisam de intelectuais, "surpresos"
polas acçons do Estado Nacional (talvez o último a manifestar-se
como tal na América Latina) para controle interno. Se o governo norte-americano nom se comoveu sequer polo fraco rechaço
da ONU e dos governos do primeiro mundo, nem ficou mudo com a condenaçom
explícita de milhons de seres em todo o planeta, nom o animaram
e nem o deteram as palavras de rechaço ou alento dos intelectuais
(por falar de Cuba, foi aprendida, recentemente, a "heróica"
acçom dos soldados israelenses: executaram um palestino com
um tiro na nuca. O palestino tinha 17 meses de idade. Houve alguma
declaraçom, algum manifesto com assinaturas indignadas? Horror
seletivo? Cansaço do coraçom? O "condenamos em
qualquer lugar e quem for" já inclui, e para sempre, todas
e cada umha das doses de terror que os de cima fazem engolir aos de
baixo? Basta dizer "nom" umha vez?). Tampouco iram detê-lo as mobilizaçons de protesto, por
massivas e seguidas que sejam, mesmo no interior dos Estados Unidos. Quero dizer: nom SÓ. Um elemento fundamental é a capacidade de resistência do agredido, a inteligência em combinarformas para resistir, e, algo que pode soar "subjetivo", a decisom dos seres humanos agredidos. O território a conquistar (chame-se Síria, Cuba, Iram, montanhas do Sudeste Mexicano) teria que se transformar assi num território de resistência. E nom me refiro à quantidade de trincheiras, armas, trampas, e sistemas de segurança (que, contodo, tamém som necessários), mas si à disposiçom (a "Moral", diram alguns) destes seres humanos para resistir. -7. A resistência. As crises precedem o conscientizar-se da sua existência, mas
a reflexom sobre os resultados ou as saídas destas crises converte-se
em acçons políticas. O rechaço a esta classe
política nom é um rechaço ao fazer política,
mas si umha forma de fazê-la. O feito de que, no horizonte muito limitado do calendário
do Poder, nom apareça definida umha nova forma de fazer política
nom significa que esta já nom esteja em andamento em poucos
ou em muitos dos fragmentos das sociedades no mundo todo. Na história da humanidade, todas as resistências têm
parecido inúteis nom só na véspera, mas tamém
na já avançada noite da agressom, mas o tempo corre,
paradoxalmente, ao seu favor se ela for concebida para isso. Poderam cair muitas estátuas, mas se a decisom de geraçons
se mantém e se alimenta, o triunfo da resistência é
possível. nom terá data certa e nem desfiles luxuosos,
mas o desgaste previsível de um aparato que transforma sua
própria máquina em projeto de umha nova ordem acabará
sendo total. Nom estou pregando a esperança vazia, mas si lembrando um
pouco da história mundial e, em cada país, um pouco
de história nacional. Vamos vencer, nom porque seja o nosso destino ou porque assi está
escrito nas nossas respectivas bíblias rebeldes ou revolucionárias,
mas si porque estamos trabalhando e luitando para isso. Para isso é necessário um pouco de respeito para o
outro que do outro lado resiste no seu ser outro, um muito de humildade
para lembrar que ainda se pode aprender muito deste ser outro, e sabedoria
para nom copiar, mas si produzir umha teoria e umha prática
que nom incluam a soberba nos seus princípios, mas si que reconheçam
os seus horizontes e as ferramentas que servem para estes horizontes. Nom se trata de consolidar as estátuas existentes, mas si
de trabalhar por um mundo onde as estátuas sirvam só
para que os pássaros caguem nelas. Um mundo onde caibam muitas resistências. nom umha internacional
da resistência, mas si umha bandeira de muitas cores, umha melodia
com muitos tons. Caso pareça desafinada é só
porque o calendário de baixo ainda nom preparou a partitura
onde cada nota encontrará o seu lugar, o seu volume e, sobretodo,
se ligará com as outras notas. A história está longe de acabar. No futuro, as convivências seram possíveis, nom polas guerras que pretenderam dominar o outro, mas si polo "NOM" que deram aos seres humanos, como antes na pré-história, umha causa comum e, com ela, umha esperança: a da sobrevivência... pola humanidade, contra o neoliberalismo. Das montanhas do sudeste mexicano. Subcomandante Insurgente Marcos. Fonte: Publicado na revista Rebeldia, maio de 2003. http://www.revistarebeldia.org/ |