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MÉXICO
• 25/10/2003
A luita contra a globalizaçom é questom de sobrevivência: Marcos.
{{A pena pode ser tamém umha espada.}} Bons dias, boas tardes, boas noites. O meu nome é Marcos, Subcomandante Insurgente Marcos. Fum convidado ao Fórum em defesa da humanidade para dizer algumhas palavras. Agradeço polo convite, mas devo adverti-los que som um soldado, um soldado do Exército Zapatista de Libertaçom Nacional. Digo isso porque, conforme me dixérom, partilharei a palavra com intelectuais e líderes políticos e sociais. Talvez por isso a minha voz soe destoante (quer dizer, além do feito de ser gravada) e fora do lugar. Ou nom. Talvez há pontes e concordâncias no que eu vou dizer. Às vezes costuma acontecer que a pena e a espada coincidem. Talvez vamos coincidir na inquietaçom por um necessário debate e por umha troca de ideias que ajudem a esclarecer um pouco este confuso e desordenado horizonte que alguns chamam de história contemporânea e que, às vezes, transforma o trivial e o grotesco em assuntos de interesse e escândalo mundial; e, outras vezes, fai do terrível e do aberrante algo que, de tanto ser repetido, se converte em música monótona e desapercebida. Mencionarei algumhas anotaçons apressuradas sobre a globalizaçom e o neoliberalismo, ou, melhor, sobre o que nós chegamos a perceber (e a sofrer) sobre eles, sobre a resistência em geral e sobre nossa resistência em particular. Como é de se esperar, nestas anotaçons reinam o esquematismo e a reduçom, mas acredito que som suficientes para esboçar umha ou muitas linhas de discussom, diálogo, reflexom. Ou, melhor ainda, de memória e de vergonha. "Vosté deveria ter vergonha de ter-me excluído", di Durito que viu abrigar-se da chuva. "Nom te excluí. Acontece que nom convidaram a vosté, mas si a mim", digo-lhe enquanto escondo o tabaco com discriçom. "Uma cousa vai com a outra. Neste caso, um nariz vai com a sua coberta. Por acaso, meu gripado escudeiro, vosté pretende privar a estas pessoas boas do deleite de ouvir as minhas sábias palavras, de se iluminar com a minha sabedoria e de espertar do letargo no qual as tuas palavras começam mergulhá-los?, pergunta Durito enquanto espeta o meu nariz com Excalibur, a lendária espada. "Suspeito que esta espada parece-se com umha pena que perdim outro dia", digo a ele mudando de assunto. Diante disso, Durito responde: "Não mude de assunto! Vosté pode escolher: ou dá um espaço para as minhas sábias colocaçons ou vai morrer pola minha pena, quer dizer, pola minha espada", di Durito com um tom de dar inveja a qualquer funcionário do Fundo Monetário Internacional que fala com algum governo latino-americano. E, aplicando o aprendido dos governos "nacionais", cedim. Vai aqui a parte que Don Durito de la Lacandona, a flor e a nata da cavalaria andante, envia para este Fórum. Chama-se: {{Globos ou tendas.}} O mundo é como um globo inflado. Ou seja, é como umha bexiga inflada. Ou seja, quando se di que há globalizaçom, é que há a mundializaçom das partes do mundo. Mas há, como alguém di, umha mundializaçom dos que têm muito dinheiro. E há tamém, como alguém di, a mundializaçom da luita, ou seja, da resistência. Na mundializaçom do dinheiro, ou seja, na globalizaçom dos poderosos, há muita maldade, mas esta maldade nom fica quieta dentro de um país, mas entra em todos os países. Esta maldade entra em outros países às vezes através da guerra, às vezes polo dinheiro, às vezes pola ideia, às vezes pola política. Ou seja, na mundializaçom da maldade estes que som muito mais ricos nom se contentam de serem ricos exploradores num país, ou seja, entre o seu povo, mas eles querem mais dinheiro e entram em outros países para ganharem mais dinheiro, e nom respeitam nada porque só querem a sua manha exploradora e só querem ganhar dinheiro; mesmo que já tenham muito, nom lhes basta, querem mais. Entom o dinheiro entra em outro país por culpa da globalizaçom do dinheiro, que nom respeita os países e as pessoas. Ou seja, cada país é como um globo que se arrebenta e do qual sai todo o que o fazia especial, como os seus costumes, a sua palavra, a sua cultura, a sua economia, a sua política, o seu povo, o seu jeito de ser, enfim. Entom o país como que se quebra e todo mundo entra neste país, e este país já nom é este país, mas si é o mundo todo. Mas nom o mundo das pessoas, e si o mundo do dinheiro, onde o povo nom conta. É como se umha pessoa se quebrasse sem mais nem menos e já nom fosse umha pessoa, mas si todas as maldades que entram nesta pessoa e a comem, e já nom há umha pessoa, mas si só o que comeu a pessoa. E assi dizemos que a globalizaçom dos poderosos, ou seja, que o dinheiro, come os países e come as pessoas que vivem neste país. Porque um país é como umha casa na qual vive a gente deste país. E entom o dinheiro mundial destrói a casa, ou seja, o país, e o povo fica sem casa e sem alma porque já nom se conhecem mais entre si e andam como desconhecidos, com a desconfiança nos olhos e nas palavras, tristes, enfim. E, entom, quando um país fica sem a sua alma, a alma do dinheiro entra nele. E este país que se rompeu já nom é umha casa onde vive a gente deste país, mas si umha pequena tenda onde se vendem e se compram cousas e pessoas. Porque, na globalizaçom, o dinheiro pom tendas onde antes havia países. E, entom, como um país já nom é um país, mas si umha tenda, a gente já nom é gente, mas si só há compradores ou vendedores. E as pessoas nom som proprietárias da tenda, o dinheiro mundial é o que é dono dela. Ou seja, o povo já nom manda no seu país, o dinheiro mundial é o que manda. E, entom, como nós dizemos, o pensamento que manda é o pensamento do dinheiro. E, por exemplo, a gente pensa, por exemplo, numha nuvem e esta a gente pensando numha nuvem a pintar o seu pensamento, por exemplo, de azul, e já, e aí anda esta gente com o seu pensamento de umha nuvem azul e esta gente está contenta com o seu pensamento de nuvem azul, e, se consegue umha bexiga, a infla e a pinta de azul e a dá a um menino ou a umha menina; e o menino ou a menina brinca com a bexiga azul que era um pensamento de umha nuvem azul. Porque as pessoas, quando pensam como pessoas, pensam pensamentos para as pessoas. Mas o dinheiro nom pensa nas pessoas, mas si pensa em mais dinheiro. Ou seja, o dinheiro nunca se satisfaz e come todo para fazer mais dinheiro. Ou seja, o dinheiro nom pensa umha nuvem, mas pensa si numha mercadoria a ser vendida e que vai vender para tirar mais dinheiro. Ou seja, na globalizaçom do dinheiro se mundializa tamém o pensamento do dinheiro. E este pensamento do dinheiro é como umha religiom que adora o deus do dinheiro; e os templos desta religiom som os bancos e as tendas, e as rezas som as contas que fam com o dinheiro, quanto vendem, quanto ganham. Esta religiom do dinheiro chama-se "neoliberalismo", com a qual se quer dizer que há umha nova liberdade para o dinheiro. Ou seja, que o dinheiro é livre de fazer o que quiser. E as pessoas já nom som livres, mas o dinheiro si tem liberdade. E na globalizaçom do dinheiro o mundo mundial destrói-se, ou seja, quebra-se o globo do mundo, ou seja, a bexiga mundial arrebenta e, entom, o dinheiro pom umha tenda onde antes havia um país: ou seja, onde antes havia umha casa com gente, agora há umha tenda. Entom, a globalizaçom do dinheiro destrói países para fazer tendas. E, entom, as tendas som para vender e comprar. E se alguém, por exemplo, nom tem com que pagar ou nom quer comprar, el nom conta, ou seja, tem que ser destruído. E se alguém, por exemplo, nom tem nada a vender ou nom quer vender e nem se vender, pois é como se nom servisse, ou seja, deve ser destruído. A globalizaçom do poder é como umha guerra contra as pessoas e as suas casas, ou seja, é umha guerra contra a humanidade. A globalizaçom do poder destrói as casas das pessoas, ou seja, os países e, às vezes, entra para destruir com umha guerra. E outras vezes entra porque alguém de alá de dentro lhe abre a porta para que entre para destruir. E os que abrem a porta som os políticos, que som os que mandam nos países, ou seja, nas casas das pessoas. E, entom, os políticos já nom servem para mandar, porque já nom mandam mesmo, porque quem manda é o dinheiro mundial. Entom os políticos tornam-se tendeiros, ou seja, som os que se encarregam da tenda que antes era um país, ou seja, umha casa das pessoas. E os políticos de antes já nom servem para atender
na tenda e é melhor colocar outros que estudam e aprendem a
tomar conta das tendas. E estes som os novos políticos, ou
seja, os tendeiros. Entom nos governos destruídos pola globalizaçom do poder já nom há políticos, mas si tendeiros. E aí, nas tendas que antes eram países, as eleiçons nom som para colocar um governo, mas si para pôr um tendeiro. E entom ponhem para competir, ou seja, para luitar entre si, gordos, fracos, altos e tarrancudos, de várias cores, que começam a falar e a falar e só a falar, mas nada do que dim é importante, ou seja, som todos diferentes na sua cara, mas todos som iguais no feito de que vam ser tendeiros. Entom à globalizaçom do poder pouco importa se o tendeiro é verde, azul, vermelho ou amarelo. O que importa é que o tendeiro apresente boas contas. Entom mudam os tendeiros, mas continua havendo tendeiro. Entom, na globalizaçom do poder, o mundo já nom é redondo, como umha bexiga inflada, mas si el arrebenta e no seu lugar fica umha tenda muito grande. E as tendas, como todos sabem, som quadradas, nom redondas. É assi, mais ou menos, como funciona a globalizaçom, que é como se dixéssemos a "bexiguizaçom". (Fim da exposiçom de Durito). "Bexiguizaçom"? Enfim, volto à seriedade e à formalidade. Além do que Durito tem expressado de forma tam peculiar, nós tamém pensamos o seguinte: {{Primeiro.}} Se na política antiga (o seja, desde a Atenas grega até às repúblicas modernas) o Estado era a "mai" do indivíduo e o seio no qual se gestava, crescia e se reproduzia a sociedade, no mundo globalizado, o Estado já nom pode cumprir esta funçom. O indivíduo já nom tem porque se referir a umha pátria, a umha cultura, umha raça ou umha língua. O ventre materno é agora esta mega-esfera que alguns ainda chamam "planeta terra". O "cidadao" já nom é membro da polis, mas si o navegante da mega-polis, portanto, precisa de outros conhecimentos e habilidades que o Estado nacional nom lhe pode oferecer. {{Segundo.}} Da mesma forma, os "homes de Estado", estes super-homes autores de citaçons clássicas, guerras, impérios, leis e repressons, já nom existem enquanto tais. Aquele velho "treinamento" interno, que existia nas classes políticas para preparar aos seus membros a substituir-se uns aos outros, está obsoleto; as habilidades da política clássica (oratória, liderança, sensibilidade, temperança, conhecimentos históricos, filosofia, jurisprudência, relaçom adequada) agora parecem mais próprias da saudade circense. O protocolo do poder, esta complexa mescla de sinais e atitudes, já nom se aprende e nom se exerce no Estado. {{Terceiro.}} O Estado nacional tende a deixar de ser o encarregado da reproduçom dos homes (entendendo "reproduçom" no seu sentido mais amplo, ou seja, as condiçons económicas, políticas, culturais e sociais para a sua reproduçom social), mas si o administrador-contentor das desordes desta reproduçom. O mega-poder, este ente do qual pouco se sabe, agora impom umha reproduçom mais importante: a do dinheiro. {{Quarto.}} A luita contra a globalizaçom do poder (e contra o seu suporte ideológico: o neoliberalismo) nom é exclusiva de um pensamento ou de umha bandeira política ou de um território geográfico, é umha questom de sobrevivência humana. assi como na Segunda Guerra Mundial umha multitude de forças resistiu e luitou contra o fascismo, agora som muitas as forças que resistem e luitam contra o neoliberalismo. {{Quinto.}} Nos Estados nacionais, o processo da parelha globalizaçom-neoliberalismo produz um fenómeno de resistência que, de forma cada vez mais acentuada, incorpora amplos sectores da populaçom sem que seja primordial a sua classe social ou o lugar que ocupa no processo de reproduçom do capital. {{Sexto.}} Aparecem, por exemplo, grupos desconcertantes (de feito, a teoria decretara o seu desaparecimento ou a sua "absorçom" polos de arriba): de um lado, indígenas que falam línguas incompreensíveis (ou seja, inservíveis para trocar mercadorias) e que desafiam com armas de madeira helicópteros, tanques, avions, metralhadoras, bombas; do outro lado, moços e moças desempregadas (o "lumpen" que, a teoria manda, deveria estar engrossando as fileiras dos aparatos repressivos do Estado) mobilizando-se contra o governo e exigindo o respeito ao seu jeito; ou, mais para alá, homossexuais, lésbicas e transexuais reivindicando o reconhecimento de as suas diferenças. {{Sétimo.}} Estes fenómenos de resistência ("bolsas de resistência" as chamamos nós para opô-las às "outras" bolsas, as de valores) tendem a procurar comunicaçom com fenómenos parecidos em outras partes do mundo. As super-autoestradas da informaçom, concebidas para facilitar o fluxo de mercadorias e dinheiros começam a ver (nom sem pavor) que por elas trafegam velhas carretas, bestas de carga e peons que nom troca mercadorias e capitais, mas si algo muito perigoso: experiências, ajudas mútuas, histórias. É claro que falo do que está ao alcance da mao: a nossa guerra, as nossas armas, a nossa história. Mas há outros exemplos que nos falam de um novo emergir, de algo novo que irrompe aqui e acolá e que nom acabamos nem de dirigir e nem de entender, em parte porque somos um fragmento destes fenómenos, em parte polo precipitar dos acontecimentos, em parte porque o presente é o pior lugar para pensar o hoje, em parte porque há ainda muitas cousas a se definir. Mas algo começa a ficar cada vez mais claro: nom está certo que nós perdemos e, sobretodo, nom está certo que eles ganharom. A história que conta, a que nós homes e mulheres fazemos, tem ainda muito fio pra tecer e nom acaba de ser adivinhado sequer o esboço e nem a cor que irá ter este gigantesco tapete que é a humanidade. Nós, e connosco muitos como nós, já sabemos que, seja como for, a cor nom é o cinza que agora imponhem, nem o esboço é só dor e morte. Há tamém muitas outras cores. E há tamém muita esperança. Se o planeta tem feridas abertas e que vertem sangue, ao nomeá-las nom só nom as sanamos, mas fazemos um ato de humanidade que, às vezes, parece perdido. - Nomeemos entom a {{Palestina}}. E que a vergonha nos envolva. - Nomeemos os {{Balcáns}} e que a memória se actualize. - Nomeemos {{Euskal Herria}} e admiremos a silenciosa e incompreendida resistência de um povo que, há séculos, se nega a ser conquistado. Alá, do outro lado do Atlântico, um povo é cercado numha clássica manobra de pinça: de um lado, a soberba de poder que, entrincheirado atrás de juizes embelezados polos cliques das máquinas fotográficas, comanda umha autêntica guerra de extermínio; de outro, a covardia de um sector que se di progressista e que, mais atento à correçom política guarda um silêncio cúmplice enquanto a cultura basca é tipificada como "terrorista". - Nomeemos {{Cuba}} e que o sangue latino-americano busque as pontes em que nos encontramos antes e nos encontraremos amanhã. No Caribe, um povo enfrenta um cerco que nom tem nada de imagem literária. Este povo tem conseguido fazer com que o seu nome baste para convocar umha história de luita e resistência, de generosidade e valentia, de nobreza e irmandade. Di-se Cuba como se di "dignidade". - Nomeemos a {{Bolívia}} e saudemos o heróico andar
de aymaras e quechuas defendendo a terra. Saudemos aqueles que fam
do ser indígena um orgulho e que com a sua rebeldia fam tremer
os tendeiros de toda a América. - Nomeemos {{qualquer canto do planeta}} e sejamos perseguidos junto a homossexuais, lésbicas e transexuais; resistamos com as mulheres ao imposto destino de decoraçom idiota; resistamos com os moços à máquina esmagadora de inconformismos e rebeldia; resistamos com os operários e labregos à sangria que, na alquimia neoliberal, converte morte em dólares; caminhemos o passo dos indígenas da América Latina e com os seus pés fagamos um mundo redondo para que possa girar. - Nomeemos {{os que nom têm nome}}. Olhemos os que nom têm rosto. - Nomeemos e olhemos o {{mundo que agora nom existe, mas que começará a existir nas nossas palavras e nos nossos olhares}}. - Nomeemos, pois, {{as dores da humanidade}}. nom só porque som tamém nossas dores. tamém porque nomeando-as nos fazemos um pouco mais humanos. Porque, diante destas feridas, o silêncio é renúncia, rendiçom, claudicaçom, morte. Se há quem tem feito da pena umha espada, que faga cintilar o ar com o seu brilho, que se enobreça apontando as nossas feridas, que nomeando-nos nos torne parte de um quebra-cabeça que amanhã será um mundo no qual nom faltem nem a memória e nem a vergonha. Porque ambas, a memória e a vergonha, som as que nos fam seres humanos. Nom sejamos nós os denunciados da nossa história, da nossa consciência, os traidores da palavra que levantamos onte e que hoje nos convoca para ser afiada e unida na memória e na vergonha. Valeu. Saúde e que a pena seja tamém umha espada e que o seu fio corte o obscuro muro polo qual terá que se introduzir o amanhá. Das montanhas do Sudeste Mexicano. Subcomandante Insurgente Marcos. México, outubro de 2003. |