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OUTRO MUNDO É POSIBLE • 1/3/2003

DEREITOS HUMANOS • Tortura: Entrevista a Martxelo Otamendi (Director de Euskaldunon Egunkaria).

Pedim-lhe ao forense que me quitase de alí, que se nom me mataria"

A Guardia Civil ameazou a Martxelo Otamendi com que se denunciava torturas iriam a por el, e que no Entroido de Tolosa nom os ía a sacar de em riba [Otamendi é natural de Tolosa (Gipuzkoa)]. "Se nos disfarzamos nom teremos problemas para che seguir ", advertirom-lhe. Nesta entrevista detalha o que suportou durante cinco dias de incomunicaçom.

-O que lhe figerom durante estes cinco dias?

Exercícios físicos intermináveis, até estoupar, até cair e perder o alento, flexons, ameazas, insultos... e a bolsa, dous vezes. Advertirom-me que era como um trem: que tinha a oportunidade de me baixar na primeira estaçom, porque assi sofriria menos, "porque aqui todos acabam cantando". A mim nom me malharom como figerom com Juan Mari [Torrealdai]. Todo era gradual: ao princípio obrigarom-me a estar em pé, logo, a ter as pernas de estarricadas pero agachado de cintura para abaixo... assi me tiverom três horas.

-Mentres interrogabam-lhe?

Nom, no calabouço. E aí mesmo, ao lado, havia outro detido dos nossos . A el estavam-lhe a tratar abondo bem, comparando co meu. Queriam escenificar discriminaçom no trato, para que chegássemos a odiar-nos, para que chegássemos a odiar ao nosso companheiro.

-Tinha um companheiro ao seu carom a pesar de estar incomunicado?

Mas nom podíamos olhar-nos, nem falar-nos. Nestes cinco dias nom cheguei a dirigir-lhe a palavra, de puro medo. Nom figemos nem olhar-nos .

-Porque havia guardias civis?

Nom estavam com nós, mas tinham como um buratinho na porta para poder-nos ver. Tenhem-che aterrecido, de medo do que che podam fazer se te pilham olhando ao teu companheiro. Tres dias inteiros juntos, e nem sequera umha palavra.

-Fizerom-lhe a bolsa.

Tentam gradualizar o interrogatorio. Dentro dessa gradualizaçom, dam-che a entender que cada dia que passa é pior. O da bolsa fijo-mo outro grupo de guardias civis, o sábado.

-O dia da manifestaçom.

Figérom-mo duas vezes. Eu, ingénuamente pensava que a bolsa duraria meio minuto ou um minuto, até perder o alento. Mas nom duras nem tres segundos! E vas-che... e dis-lhes: "Vou contá-lo todo!". Entóm, começas a dizer algo, que nom che lembras ou algo assi, e eles começam outra vez: "Lembra, filho de puta! Ao cham! A fazer flexons!"

-Baterom-lhe?

Si, quando me espirom. Punham-me cara abaixo e cara arriba. Tamém havia insultos de tipo sexual: "Pom-te assi, que sabemos que che gosta assi"... Mentres estava nu me meterom um plástico polo ano.

-Comentou-lhe ao forense que o torturarom?

Todos os dias levavam-nos onde o forense. O segundo dia, dixem-lhe que o Joves fora um dia muito duro, que me figeram fazer milhares de exercícios, de insultos, de ameaças... "Isto cheira-me muito mau, vou perder o conhecemento", dixem-lhe: "diga-lhe ao senhor juiz que me levem a um calabouço da Audiencia Nacional, se nom vou começar a bater coa cabeça nessa parede de aceiro...". Saim de alá cos olhos vendados, e aos 30 minutos chegarom máis guardias civis ao calabouço, quitarom-me a rastas, tombarom-me no cham, e me dixerom: "Se lhe contas algo máis ao forense, metemos-che um tiro". Em meia hora ja o sabiam todo!

-Mentres estivo co forense nom havia guardias civis presentes, por suposto.

Assi é, e entom dixem-lhe ao juiz, que os guardias civis tinham meios para saber o que falávamos co forense. Queria-lhe dar a entender que a figura do forense nom vale nada, que nom hai garantías para o detido.

-Que tipo de informaçom queriam obter?

Comigo tinham duas questons: por umha banda, a participaçom de ETA na constituiçom de Egunkaria e na minha nomeaçom, e, por outra banda, as entrevistas com ETA, os documentos, e as publicaçons Zutabe. Dixem-lhes unha e outra vez que nom temos nada que ver com ETA, que a mim nomeou-me Inhaki Uria, que Uria nom é de ETA e dixem-lhes tamém que nom aceitaria a nomeaçom se soubesse que ETA tinha algo que ver. Tamém lhe dixem isto ao juiz, mil vezes, quando me deixou falar durante 45 minutos. Mas quando lhes dizia isso aos guardias civis faziam-me calar "¡Filho de puta!, Filho de puta!". Tamém me dixerom que me iam matar. Quando lhes dixem que tenia direito a nom declarar me respondiam "este sítio nom tem nada que ver coa democrácia nem coa puta Constituiçom".

-Tinham muita informaçom sobre vosté?

Sempre quitavam a reluzir os meus comentários nas tertúlias. Derom-me a entender que quando se fijo o juizo polo caso Lasa e Zabala em Madrid eles tamém estavam no juizo: "Polo que reíste quando lerom a decisom judicial?". Notava-se-lhes que me tinham rábia.

-Semelha que possuem abondante informaçom sobre Egunkaria e sobre o mundo do euskara.

Assi parece. Nunca sabes quanto, mas semelha que tenhem um conhecemento profundo sobre a produziçom em euskara e sobre o euskara.

-Forom diferentes grupos de guardias civis os que lhe torturarom?

Comigo estiverom dous grupos. Gente jovem, duns 30 anos, com um ódio profundo, que tém um conhecemento geral da cultura vasca, que tém unha conceiçom imperial centralizadora de Espanha. O seu jogo favorito era perguntar-me : "¿Quais som os limites de Espanha?". E eu tinha que responder: "De Irun a Algeciras e de Finisterre a Cabo de Rosas". E faziam-me repetir unha e outra vez.

-Pudo ver a algum guardia civil?

Sempre levava os olhos tapados, com unha espécie de calcetím que tinha recolhido à altura dos olhos. Se se movia e entrava algo de luz, eu mesmo lhes avisava, porque me daba pánico pensar o que me podiam fazer se se davam de conta.

-Sabia quem estava nos outros calabouços?

Nom. Semelhou-me ouvir os berros de Torrealdai e de Uria, berrando e queixando-se. Imagino-me que haveria outros membros da actual direcçom de Egunkaria.

-Fizerom-lhe dizer algo falso?

Nom, porque ademais como pensas que sabem a resposta, nom te atreves a mentir. Estivem horas e horas sem saber o que dizer. Ao final criem-te. Neguei tantas vezes que houvesse qualquer relaçom entre ETA e Egunkaria, que ao final se aburrirom e começarom-me a perguntar polas entrevistas com ETA, e polos comunicados. De todos os jeitos, essa nom foi a preocupaçom do juiz. O juiz dixo que esse sumário estava em maos de outro juiz e que el nom se meteria aí.

-Os guardias civis comentarom a possibilidade de alongar a incomunicaçom e a detençom?

Si. Figerom-me assinar um papel no que se me comunicava que o juiz decidira alongar a incomunicaçom oito dias. Isso dixerom-no o sábado, e pensava que me teriam alá o domingo, o luns, e ainda outros tres dias máis. Pensei que nom aturaria. Aí mesmo apresentam-che a possibilidade de suicidarte. Pedim-lhes que me deram um tiro, e que acabasem pronto.

-Vosté pediu isso?

Si, máis dumha vez. Dixem-lhe ao forense que se nom me fazia caso que me mataria contra unha coluna de aceiro que havia alí. Nom queres morrer, mas é algo que che sae de dentro, é unha forma de dizer que chegache ao limite dos suportavel, que nom podes máis.

-Depois de cinco dias de incomunicaçom, que lhe dixo ao juiz Del Olmo?

Figem umha defensa de Egunkaria e de mim mesmo. Deixe-lhe claro que Egunkaria nom tem nengumha relaçom com ETA, que ETA nunca interveu no jornal, e que a única relaçom que tivem, com Egunkaria, forom tres entrevistas, isto é, trabalho jornalístico. Falei longo e tendido. Outra questom era o dos acçonistas de Egunkaria. Nom entendiam como havendo uns mil acçonistas só vam à junta uns 30, e como os acçonistas nom pediam que Egunkaria produzisse benefícios. O juiz fazía-me perguntas sobre este tema, e eu dizia-lhe que se queria lhe explicava a nossa filosofia. Dizia-lhe que os acçonistas ponhem quartos com duas condiçons: botar Egunkaria adiante, e nom ter discussons quando nos juntamos. Dixem-lhe que o BBV tem máis dum milhom de acçonistas, mas que às juntas nom vam máis de mil quinhentos; eu estivem convidado numha junta do banco, e vim-o. O Barça tem 100.000 sócios, e à junta anual nom irám mas de tres mil ou quatro mil. Dixem-lhe que os productos em euskara som deficitarios, que vivemos graças a subvençons, e que as infra-estruturas, económicamente e empresarialmente som deficientes. Tivem que explicar todo isso para explicar por o que nom vam os acçonistas às juntas.

-A tese do juiz é que som acçonistas factícios...

A jogada é dizer que ETA pugo o quartos, e que os acçonistas som o guarda-chuvia. Eu dixem-lhe que eram de verdade, nominais. Perguntou-me a ver se lhes conhecia, e dixem-lhe que si, que conhecia alguns. Passei-me 45 minutos respondendo a este tipo de perguntas: que nom me nomeara ETA, que ETA nom tivo nengum tipo de intervençom em Egunkaria, que nom hai nengum membro de ETA em Egunkaria, que a mim me nomeou o Conselheiro Delegado. Que a única déveda a tinha cos meus leitores, cos meus trabalhadores, cos meus anunciantes. Dixem-lhe que nom sabia em que papeis aparecia o meu nome, mas que se existem eu tinha um papel pasivo, que me nomeam sem eu saber nada de nada.

-Igual que em muitos papeis de diferentes partidos políticos podem aparecer algumhas valoraçons?.

Dixem-lhe: "Estou seguro que em muitas executivas de muitos partidos aparece Egunkaria, e o noso nome, e isso estará recolhido em acta, e isso nom quer dizer que tenhamos nengum tipo de relaçom". Alguns falaram de Egunkaria, talvez para valorar algumha juntança, e alguns para valorar o tratamento informativo bom ou mau que se lhe esta dando a nom sei que tema.

-Que reacçom tivo o juiz ante a denúncia de torturas?

Nem o fiscal nem o juiz perguntarom nada, nem pedirom nengum tipo de precisom. Dixem-lhes que nom era possível tratar a nengum profissional da informaçom nem a nengunha pessoa desse jeito... E além disso dixem-lhes: "Os guardias civis dixerom barbaridades sobre os meus direitos, sobre a Audiencia Nacional, sobre a Constituiçom, sobre o Governo Vasco...". E dixem-lhes: "Por respeito a esta instituiçom nom vou repetir o que ouvim".

-Quando saiu livre esperava ver Egunero na rua?

Nom tinha nengumha dúvida. houvo duas questons das que estou especialmente orgulhoso: por umha banda, que fostes capaces, sem director, sem conselheiro delegado, e sem o presidente do conselho editorial, de organizar e de publicar um jornal; por outra banda, a impressionante manifestaçom do Sábado. Ampla, enorme e espontáneia, polo que me contarom. Umha manifestaçom à que a gente foi de coraçom, muita gente chorando.... Agora temos que aproveitar esta onda para fazer um grande jornal.

-Ao sair do cárcere apontou três tarefas.

A primeira: que temos que seguir trabalhando para que os companheiros que seguem no cárcere saiam em liberdade. A segunda, que temos que fazer que Egunkaria sega adiante. A terceira, que temos que aproveitar que gente conhecida de Euskal Herria foi torturada para criar umha barreira nacional-institucional-social contra a tortura. Ja que a nossa denúncia vai ser creivel para muita gente, trabalhemos para que desapareza. Os gestores deste país tenhem-o que considerar um problema de primeira orde. Temos que organizar umha espécie de Nunca Mais contra a tortura.
O Governo espanhol ja anunciou que vai denunciar aos que denunciarom torturas.

Veremo-nos nos tribunais, mas a mim torturarom-me, e nom demostrei nada porque nom tivem oportunidade de demostrar nada. A minha palavra será contra a deles.

Fonte:

Egunero. (O novo Egunkaria) http://www.egunero.info/