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OUTRO MUNDO É POSIBLE • 1/4/2003 IRAK • O Dicionário do Diabo.
O Dicionário do Diabo, mais algumas reflexons sobre a guerra,
é um texto de Uri Avnery. A verdade é a primeira vítima
de guerra. Nengum outro nome poderia ser tam apropriado para a cooperaçom
entre os Estados Unidos e o Reino Unido contra o Iraque. No "Dicionário do Diabo" do humorista estadunidense
Ambrose Bierce, publicado uns 100 anos atrás, "coalizom"
é definida como (estou citando de memória) a cooperaçom
entre dous ladrons que têm as maos tam enfiadas um nos bolsos
do outro, que nom podem roubar a umha terceira pessoa separadamente. Reconstrucionistas. O problema dos británicos e dos americanos é que eles
som possuídos por umha insaciável sede de reconstruçom. Eles sonham com isso dia e noite. Eles nom conseguem pensar nem falar
de qualquer outra cousa. Assi, os británicos, junto com os americanos, estam ocupados
em destruir o Iraque sistematicamente. Mísseis e bombas, tanques
e artilharia, navios e infantaria, todo está sendo empregado
para facilitar a reconstruçom do país. O objetivo principal é a urgência de reconstruir, obviamente,
Bagdá. umha cidade de cinco milhons de pessoas, quilômetros
e quilômetrs de edifícios e ruas, que poderam ser reconstruídas
depois da demoliçom. Se Bagdá se tornara, efetivamente,
o sítio de umha guerrilha urbana como foi Estalingrado, casa
após casa, rua após rua, seguramente haverá muita
cousa para ser reconstruída. Os novos mongóis. O apetite para reconstruir separa os novos conquistadores de seus
predecessores, os mongóis, que conquistarom Bagdá em
1258, matarom o Califa (que já tinha se rendido) e destruírom
a cidade completamente, depois de massacrar todos os seus habitantes,
homes, mulheres e bebês. Por sinal, dous anos depois, os muçulmanos aniquilaram o exército
mongol na batalha de Ein-Jalud (onde hoje se situa o kibbutz Ein-Harod),
um dos principais capítulos da história palestina. Aquel
foi o fim dos mongóis no Oriente Médio, mas até
hoje, a regiom nunca se recuperou da devastaçom mongol. Demolir e lucrar. Além do objetivo idealista de ajudar ao povo iraquiano, há
tamém um aspecto mais material da reconstruçom. Será
um grande negócio. As grandes corporaçons americanas,
algumhas das quais estam conectadas aos paladinos da administraçom
Bush, já estam litigando sobre os espólios de guerra.
Obviamente, elas nom permitirom que outros estrangeiros participem
da boa ocasiom. Repetindo umha máxima americana: "Os espólios
pertencem aos vitoriosos". Humanitários. O inesgotável idealismo dos anglo-americanos encontra a sua
expressom tamém na corrida para a ajuda humanitária.
Isso está se tornando umha verdadeira obsessom. A ajuda humanitária
deve ser levada ao povo iraquiano de qualquer jeito, queiram eles
ou nom. Os habitantes de Bassora nom querem ajuda humanitária? Até,
isso vamos ver
Vamos bombardeá-los, deixá-los
morrendo de fame, até que eles abram as suas portas e permitam
a entrada da nossa ajuda humanitária. Afinal de contas, nom
se pode ajudar a pessoas que ainda estejam sob o controle do maligno
Sadam, maldito seja o seu nome, cujo único objetivo é
prevenir que a ajuda humanitária alcance o seu povo. A coalizom poderia, é claro, lançar comida e água,
ao invés de bombas, do ar. Tamém poderia-se programar
um curto cessar-fogo, de modo a levar a ajuda humanitária à
cidade sitiada. Mas isso foi proibido por Donald Rumsfeld, outro grande
humanitário. Portanto, nom há realmente outra alternativa
a nom ser bombardeá-los até que estejam maduros para
receber a ajuda. Amos e nativos. Como umha prévia da ajuda humanitária prestes a ser
oferecida, depois da ocupaçom de Bassora, os británicos
distribuírom um filme sobre a chegada da ajuda humanitária
a umha cidade no meio do caminho. Eles ficaram tam satisfeitos com
a reportage que a ficarom repetindo inúmeras vezes na tv. A situaçom parece ser essa: os camions británicos traem
comida e água. Os habitantes da aldeia, composta principalmente
de mulheres e crianças desesperadas, cercam o camiom. Imploram
por água. Os soldados distribuem água mineral à
povoaçom enfurecida, umha garrafinha para cada mulher e criança.
Depois de dias de sede, um (um!) litro para cada família. A cena toda dá nojo. A povoaçom presa no meio da guerra,
com fame e sede, é ainda explorada por umha crua propaganda.
Os británicos parecem novamente aquilo que sempre pareceram
no Iraque: presunçosos amos coloniais fazendo um favor aos
nativos. Para cada árabe, essa é a quintessência
da humilhaçom. Roubando para os roubados. Para financiar todo, a destruiçom,
a reconstruçom, a ajuda humanitária, é preciso
de dinheiro. De onde virá a grana? Do petróleo iraquiano,
é claro. Toda criança sabe, nesse ponto, que a guerra é polo
petróleo. Os EUA pretendem tomar posse das reservas iraquianas,
as segundas do mundo, depois das sauditas, e controlar as reservas
da vizinhança, do Mar Cáspio, do Iram e do Golfo. Mas
parece que é todo só para o benefício do povo
iraquiano. De modo que eles possam ter algo para comer e remédios
para as crianças. Oh, Orwell, Orwell. O que será que el teria dito dessa guerra? No seu livro "1984", el colocou na boca do Ministro da
Verdade frases como "Guerra é Paz", "Liberdade
é Escravitude" e "Ignoráncia é Poder".
El estaria em casa, nesta guerra. A verdade é sempre a primeira vítima de qualquer guerra.
Mas parece que nesta guerra em particular, a verdade está sofrendo
mais do que de hábito. A falsidade, hipocrisia, desinformaçom,
e siples lavage cerebral estam tendo umha festança. Generais
de quatro estrelas papagaiando slogans mentirosos, jornalistas-estrelas
do mundo todo aceitando cegamente o que dim, as redes de televisom
do mundo todo repetindo diligentemente o que os generais falam e os
meios israelianos dando aquela lambida a todo, vorazmente. Bom apetite. Uri Avnery tem acompanhado a carreira de Sharon por quatro décadas. Durante esses anos, escreveu três amplos ensaios biográficos sobre el, dous deles (1973, 1981) contando com a sua cooperaçom. Avnery aparece no novo livro:The Other Israel: Voices of Refusal and Dissent (O Outro Israel: Vozes de Recusa e Divergência) March 31, 2003 Fonte: Uri Avnery, http://www.counterpunch.org Para saber máis: WEB No a la Guerra, http://www.noalaguerra.org/ Nodo50, http://www.nodo50.org Espacio Alternativo, http://www.espacioalternativo.org Rebelión, http://rebelion.org Waiting for the WEBcam en Iraq, http://waitingforthewebcaminiraq.org
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