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OUTRO MUNDO É POSIBLE • 7/6/2003

GALIZA • MAR DE FONDO?

Colectivo Vences (Íñigo Berriochoa, Mercedes Raíces, Alberte Pagán, Lola Varela, Dionísio Pereira)

nota: O presente artigo é umha colaboraçom destinada ao número 69 de VIENTOSUR.

Nunca desde a chamada Transiçom se prestou tanta atençom desde o exterior ao resultado eleitoral em terras galegas. O efeito "Prestige" e o acaso imprevisto movimento em torno a "Nunca Mais" concitou medos, esperanzas e nom pouco morbo dentro e fora do país. Despois do 25 de Maio, os uns (a direita secular) podem respirar tranquilos, polo de agora...; os outros comprovarom com crueza que tipo de adversário tenhem em frente; e os morbosos, em definitiva, tenhem ocasiom de visitar umha ampla geografia de lugares comuns na rede ou nas cartas ao director: umha paisage visceral que pode resumir-se na consigna "galegos fodede-vos, tendes o que merecedes".

Os resultados?: Nada do outro mundo. O PP baixa (segue a baixar, haberia que dizer, desde as municipais de 1999) quatro pontos, um descenso só superado em todo o Estado polo Aragom refractário ao Plano Hidrológico. E baixa agora nom só nas cidades, senom tamém nas vilas do interior e do litoral, ainda que haja excepçons chamativas (Muxia, por exemplo) e, desde logo, cheias de um complexo significado que supera as boas intençons de nom poucos seguidores de "Nunca Mais". E aqui, para comprender e posibilitar um cámbio, só val aquela máxima da "análise concreta da situaçom concreta", por muito que doa. Em qualquer caso, nom o dizemos nós, di-o o secretário do PP galego, Sr. Palmou: o "Prestige" passou factura. Ainda que menos gravosa do que se esperaba.

Na oposiçom, a cousa vai por parróquias. Impulsados nas urbes pola vantage de serem alternativa a nível estatal nas eleiçons gerais que xa se vislumbram, e no resto do país pola sensível presença de organizaçons sociais afins (Unións Agrárias, UGT, AAVV), os socialistas recebem os melhores réditos: com 60.000 votos mais que em 1999, governarám previsivelmente em 4 das 7 cidades, na Deputaçom de A Corunha e em torno a 65 concelhos. Em quanto ao BNG, os resultados nom invitam ao optimismo: 35.000 votos e algumhas alcaldias mais respeito a 1999 nom dam para manter os governos municipais de Vigo e Ferrol (que pasarám, pactos mediante, a maos de socialistas e populares), impedir um sensível retroceso em Lugo e Santiago, nem para encabezar a Deputaçom de Pontevedra, comprometendo asi a estratégia para sobrepassar ao PP e ao PSOE nas vindeiras autonómicas. Ademais, todo parece indicar que entramos num novo cenário político onde o protagonista do "relevo natural" dos populares na Junta dista de estar claro.

Fora das forzas políticas maioritárias, pouco que resenhar: a nuve de independentes cabreados com o PP sumam mais de 70.000 papeletas; um voto em branco e nulo em ascenso e superior a 41.000 sufrágios (em parte devidos ao chamamento feito por alguns sectores independentistas); o pequeno aumento de EU, que fica no umbral da dúcia de concelheir@s; e @s independentistas da FPG, que mantenhem o seu único representante em Cangas do Morrazo. Ah!, na maltratada Costa da Morte o PP governará previsívelmente em 6 concelhos, o PSOE em 5, entanto o BNG teria (se funcionam os acordos com os socialistas) 2 alcaldias.

Que foi daqueles dias...?

Manifestaçons históricas onde houvo que contar com seis dígitos; lugares como Ogrobe, nos que "o povo foi quem mais ordenou"; "escraches" á argentina contra ministros, deputados, conselheiros e o próprio Dom Manuel em vias e estabelecimentos públicos; centros de ensino assulagados com a iconografia de "Nunca Mais"; confrarias de pescadores outrora submissas, subitamente em estado de franca rebeldia; bandeiras de NM nos lugares mais insuspeitos... a Galiza minifundista no territorial e o ideológico, viveiro de políticos pragmáticos e caciques de corredoira; a Galiza que emigra ou baixa a cerviz antes que protestar; a Galiza governada desde sempre pola direita... ia cambiar em seis meses, despois da quinta maré negra em 30 anos? Algo se vinha gestando desde atrás: duas folgas gerais (umha sem referência no resto do Estado) exitosas; o rejeitamento rotundo e imaginativo da comunidade universitária á LOU, sem parangóm além do Padornelo; a derrota do associacionismo agrário alentado polos populares nas eleiçons a Cámaras Agrárias; a contínua diminuiçom de votos do PP, que ia deixando em evidência um país escindido e com duas velocidades, polo menos... Abondaria com isso para cambiar um panorama sociopolítico que tam só na alborada republicana conheceu o contraste?

Permita-se-nos um breve fotograma estrutural: umha economia com sectores chave (gandaria, construçom naval, pesca...) entre dessassistidos e desmantelados polos poderes públicos e em crise permanente; amplas capas da populaçom que, caso das avelhentadas bisbarras rurais do interior e determinadas zonas atrasadas do litoral, nem tam sequer viverom a Transiçom, convivem com a corrupçom do subsídio e conhecem de novo o açoute da emigraçom às Canárias ou Andorra (Camarinhas converteu-se, na nova "gíria" migratória da Costa da Morte, em "Canarinhas"); umha sociedade dessartelhada, com um precário tecido associativo asfixiado pola rede clientelar urdida polo PP sobre as velhas aranheiras caciquis; um mundo cultural raquítico e mui sensível às prebendas... E, agora, outro rápido repasso a certas "condiçons subjectivas" prévias aos comícios: divisóm e querelas intestinas do PSOE em diversas vilas e cidades (Ferrol, Ourense, Ribeira...); dessánimo e clima de enfrentamento dentro do nacionalismo derivados do fracasso nas eleiçons autonómicas e a falta de acordo existente, tanto no relativo à chocante táctica de "diálogo institucional" com o PP defendida por Beiras, como nos sinais de identidade do projecto sociopolítico; reprego do BNG ante a virulência do nacionalismo español e o assédio a Euskal Herria (abstençom na ilegalizaçom de Batasuna; passividade frente à suspensóm de Egunkaria...); atomizaçom e extrema fragilidade da esquerda social; inoperáncia dos sindicatos na pesca artesanal e o marisqueio...

E nisto chegou o "Prestige" e, com él, "Nunca Mais", a maior mobilizaçom em duraçom e massividade acontecida no país desde os tempos republicanos. Mas NM, apesar do papel que jogou a espontaneidade das propostas, nom surgiu da nada: no movimento tiverom um papel sinalado tanto novas capas juvenis radicalizadas na batalha contra a LOU, como a geraçom frustrada polo fiasco da Transiçom; umha geraçom que em parte nutre hoje de quadros a partidos, sindicatos e movimentos sociais, e em parte servia de suporte sociológico ao famoso "dessencanto". O éxito induvitável das convocatórias, mantido mesmo tres semanas antes das municipais para surpresa de próprios e estranhos, nom deve agachar umha evidência: o controlo exercido sobre a Plataforma NM polos colectivos afins ao BNG (cuja militáncia mais combativa é indisociável da impresionante resposta social, em contraposiçom ao oportunismo mediático do PSOE), apoiados na imagem pública de conhecidos "companheiros de viage" do mundo da arte e a cultura. Um controlo que, mesmo, obstaculizou em ocasions a integraçom de colectivos e derivou num funcionamiento vertical da Plataforma: a image de um conhecido parlamentário nacionalista exercendo de presidente-redactor de actas nas assembleias é suficientemente explícita. A principal vítima da maré cidadá foi (ademais de José Cuiña, defenestrado polas intrigas intestinas do PP galego) o idílio mantido contra natura polo tandem Fraga-Beiras; nom obstante, a direcçom nacionalista procurou por todos os meios que a radicalidade das propostas nom excedesse a fronteira suportável por certo eleitorado "popular", descontento e presuntamente em desbandada tras a iminente retirada do antigo ministro franquista. Nom se produciu, pois, umha derrota social de envergadura no campo da direita, algo que quiçá (?) pudo estar ao alcance de NM polo caminho da desobediência civil, a deslegitimaçom social dos governantes e a convocatória de umha folga geral com objectivos políticos precisos (entre eles a demissom dos responsáveis mais directos da desfeita). Ademais, a mínima presença da esquerda (entendida em sentido amplo) nos colectivos de gentes do mar (confrarias, agrupaçons de mexilhoeiros, mariscadoras e vendedores...), impossibilitou explicar in situ que as induvitáveis concessons do PP ao sector (extensom das indemnizaçons, pago de desperfeitos, reduçons impossitivas, declaraçom de zona pesqueira sensível...) e ao resto da sociedade galega (estabelecimento na Galiza da Agência de Segurança Marítima Europeia, proibiçom de monocascos....), deverom-se à luita e nom à generosidade de Rajoy e cia. Haberia, portanto, que tirar conclusons ao respeito.

Dizer que os comportamentos eleitorais tenhem ritmos e condicionantes diferentes aos movimentos sociais nom é nengumha novidade, ainda que passe com freqüência o que nos cantava Paco Ibáñez: "me lo decía mi abuelito, me lo decía mi papá, me lo dijeron muchas veces y yo lo olvidaba muchas más". As grandes mobilizaçons, fora de conquistas imediatas (que tamém as hai), influem em prazo incerto sobre as conciências e os hábitos sociais, entanto que só em menor medida determinam os resultados das eleiçons mais próximas no tempo: exemplos hai os que se queiram, desde Maio do 68 até à campanha ánti-OTAN. "Nunca Mais" nom é a excepçom a este panorama, por mui rebotad@s que estejamos ante a evidência de que a direita secular, tras o "Prestige" e o apoio ao belicismo ianque, sofre tam só um ligeiro desgaste na Galiza e, significativamente em menor grau, no conjunto do Estado espanhol. Em qualquer caso, som lícitas as dúvidas que hoje assaltam a persoas activas no movimento NM sobre a dimensóm ou a própria pertinência da participaçom eleitoral, dentro do actual sistema de representaçom indirecta. Maxime, quando o voto "cativo" polas práticas caciquis nom é nengumha enteléquia na Galiza rural e nom tam rural.

Recapacitemos: maré superficial ou mar de fondo?

Nom queremos exercer de adivinh@s e menos de sepultureir@s, mas muito tememos que a decisom de paralizar a Plataforma NM para "respeitar" o paréntese (nunca melhor dito) eleitoral, fijo-lhe um fraco favor ao movimento. Semelhante cenário conlevava, ademais, a utilizaçom mitineira das mobilizaçons por parte de forzas políticas opostas ao PP, sinaladamente o BNG e o PSOE. Ao nom acompanharem os resultados na medida esperada, o revés salpica indirectamente a NM. O cansaço do persoal e a chegada do verao fam o resto e nom presságiam a recuperaçom do tecido social implicado... a menos que o "Prestige" (afundido com milheiros de toneladas de fuel no seu interior) faga das suas e, ante a passividade dos responsáveis políticos em retirar o fuel, este asulague umha vez mais praias e alcantis. Tampouco semelha que a Gestora da Plataforma esteja polo labor de continuar o movimento em chave combativa e rebelde: a reconversom da estrutura de NM em foro de opiniom, adornado com a recriaçom estética de momentos estelares e com propostas lúdico-reivindicativas enfocadas mormente aos meios de informaçom, está à volta da esquina. E pode ser útil, desde logo, para pressionar os diversos Parlamentos em matérias de tráfico marítimo e elaboraçom de planos de prevençom e luita contra a contaminaçom marinha. Mas mais nada. Onde estám, portanto, as ilusons de que NM servisse de catalizador para cambiar as relaçons entre @s galleg@s e os poderes públicos, actualmente baseadas na submissom, o clientelismo e a falta de transparência? Onde os desejos de que a experiência comum de luita significasse um salto qualitativo no artelhamento social do país e no exercício da sua soberania como realidade diferenciada que é? E a "necesidade histórica" de que a maioría social se identificasse (nom só eleitoralmente) com os valores democráticos, integradores e igualitários próprios da esquerda e desterrara a prepotência incompetente e aproveitada dos eternos caciques?

Despois do fragor eleitoral, ainda fica gente com vontade de actuar e de reflexionar andando. Alguns colectivos sociais seguem activos no espírito de NM e outros muitos tiverom conhecimento uns dos outros, ainda que tras a resaca eleitoreira haja tentaçom de volver cada quem ao seu espaço local ou sectorial. Tampouco certas confrarias de pescadores som as que eram e, sobre todo nas Rias Baixas, o desgaste do PP é notório. Algo se move na direcçom de artelhar um Foro Social de ámbito galaico e novas propostas (caso de Indymedia Galiza) de contra-informaçom estám operativas em diversos suportes mediáticos. Como dixo umha companheira de fatigas, "agora, as associaçons tenhem as suas agendas cheias de endereços". Pois a utilizá-los.

Galiza, 7 de junho 2003*

Colectivo Vences
(Íñigo Berriochoa, Mercedes Raíces,
Alberte Pagán, Lola Varela, Dionísio Pereira)


*O presente artigo é umha colaboraçom destinada ao número 69 de VIENTOSUR.

Para saber máis:

VIENTOSUR, Por una izquierda alternativa http://www.vientosur.info/