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OUTRO MUNDO É POSIBLE • 14/10/2003 GLOBALIZACIÓN • James Petras: A política da tragédia da ONU.
É o cúmulo da hipocrisia que os altos funcionários da ONU afirmem ser vítimas inocentes. O atentado contra o prédio da Organizaçom das Naçons Unidas (ONU) no Iraque tem provocado angústia, pesar, pomposas ameaças por parte do governo Bush e promessas precipitadas do Secretário Geral Kofi Annan de "levar adiante a missom humanitária". O debate e a discussom, no grau em que têm aparecido nos meios de comunicaçom de massa, se concentram em quem foi o responsável polas "falhas de segurança": a ONU e seus partidários apontam a incompetência do exército de ocupaçom dos Estados Unidos, os funcionários estadunidenses acusam de negligência aos do organismo mundial. Estas discussons som sobre assuntos técnicos secundários, que nom se referem às questons políticas de fundo do ataque. Como era de se esperar, os neoconservadores pró-israelenses de Washington atribuem o atentado ao terrorismo árabe islâmico, e o relacionam com o recente ataque a um ónibus israelense, para justificar umha violência maior por parte de Israel e dos Estados Unidos. O centro-esquerda elogia as virtudes diplomáticas e humanistas do representante especial da ONU no Iraque, Sérgio Vieira de Mello, e garantem sem pestanejar que o atentado prejudicou a causa do povo iraquiano e afectou ao processo de reconstruçom nacional. Sob a direçom de Kofi Annan, as Naçons Unidas nom têm desempenhado um papel imparcial no conflito entre EEUU e Iraque. Apoiarom por mais de umha década as sançons económicas contra o Iraque que produzirom mais de um milhom de mortes neste país, crianças em a sua maioria, e causarom a renúncia, em protesto, de dous altos funcionários desta mesma organizaçom. Inspectores da ONU supervisionarom o desarmamento das defesas iraquianas e passaram por cima, ou aprovarom, os bombardeios de EUA e Gram Bretanha contra o Iraque durante mais de 12 anos. Durante todo o período antes da invasom estadunidense, a atençom do órgao estava voltada a pressionar ao governo iraquiano para que aceitasse as demandas estadunidenses, sem condenar os preparativos de guerra de Washington, apesar do Conselho de Segurança, no final, ter se negado a aprovar a invasom unilateral. O histórico da década anterior pom a ONU claramente ao lado dos Estados Unidos, a ponto de se identificar que vários dos seus inspectores trabalhavam com a CIA, realizavam investigaçons e proporcionavam informaçom estratégica à inteligência militar de Washington. Algum escritor poderia objetar que a colaboraçom entre EUA e ONU é cousa do passado, pois, passada a conquista militar do Iraque, o órgao nom tem apoiado a ocupaçom militar e, polo contrário, tem promovido a transiçom para um governo próprio e democrático. Documentos publicados, entrevistas oficiais e resoluçons da instituiçom mostram um quadro bem diferente no qual se aprecia que as Naçons Unidas têm aceitado o governador colonial Paul Bremer e têm colaborado com ele na tentativa de consolidar o controle estadunidense sobre o país ocupado. Após o desastrado mês em que ficou no cargo o primeiro governador colonial Garner, e da sua substituiçom por Paul Bremer, ficou claro, até para o mais tenaz e sanguinário militarista do Pentágono, que a dominaçom imperial desencadeara um poderoso movimento de resistência em todos os sectores da sociedade iraquiana, bem como o total isolamento do regime colonial estadunidense por parte de qualquer regime árabe, muçulmano ou europeu (à excepçom da Inglaterra e, obviamente, de Israel). O governo Bush foi intransigente em a sua demanda de poder total no Iraque, mas estava disposto a deixar que a ONU agisse sob o seu comando. Annan enviou Vieira de Mello a trabalhar com o governador colonial Bremer, e o brasileiro teve um brilhante sucesso político em termos vantajosos para o poder colonial de Washington. A missom de Vieira de Mello encaminhou a criaçom de umha junta consultiva (Conselho Nacional Interino do Iraque) que servisse de folha de videira para [ocultar] o controle estadunidense. Conforme a resoluçom 1483, aprovada polo Conselho de Segurança em 22 de maio de 2003, forom entregadas a Vieira oito áreas de actividade, todas referentes à "reconstruçom" do país, especificamente na esfera política. O funcionário se encarregou de cortejar líderes tribais, clérigos conservadores e exilados políticos do pentágono para que formassem a junta, com a ressalva de que o governador colonial deveria aprovar todos os membros e de que todos concordassem com a invasom e a ocupaçom estadunidense. De feito, Vieira organizou umha coleçom de notáveis autodesignados e carentes de poder, sem credibilidade e sem legitimidade para o povo iraquiano, para que servissem cara o escaparate à dominaçom colonial estadunidense. Logo que a junta aprovada polos Estados Unidos ficou no seu lugar, Vieira viajou por todo o Oriente Médio para tratar de convencer as naçons vizinhas de que esta "criaçom" dos EUA, à qual se opóm a maioria dos iraquianos, constituía um "regime de transiçom" legítimo e representativo. O seu principal argumento era que se tratava de umha junta "governante" e nom só "consultiva", e isso nom convenceu a ninguém, menos ainda os funcionários estadunidenses que entregavam contratos à Halliburton Corporation e organizavam a privatizaçom do ouro petrolífero, e, obviamente, tampouco os militares estadunidenses que aterrorizam e assassinam civis iraquianos inocentes. Nem a resoluçom 1483 sobre a "reconstruçom" sob o domínio colonial de Washington, nem o activo papel de Vieira de Mello em promover e defender o regime títere interino forom atividades humanitárias desinteressadas. Eram posiçons políticas, compromissos que implicavam e aceitavam o domínio colonial dos EUA e umha clara e deliberada decisom de utilizar as Naçons Unidas como veículo para legitimar o governo imperial através de umha junta impotente e corrupta rechaçada polo povo iraquiano. Sem dúvida, Vieira de Mello estava consciente da concentraçom de poder nas maos de Bremer, sabia que o povo iraquiano repudiava umha junta cujos integrantes nom tivo a oportunidade de escolher e participou ativamente em excluir deste órgao qualquer opositor do colonialismo. A sua relaçom próxima ao trabalho de Paul Bremer solapou qualquer pretensom de que as Naçons Unidas fossem umha força independente no Iraque. Aos olhos dos iraquianos e dos ex-altos funcionários da própria instituiçom (Boutros Ghali e Denis Halliday), a ONU e, sobretodo, Kofi Annan e Vieira de Mello, eram apêndices do poder colonial de Washington. Denis Halliday, que foi Secretário Geral Assistente das Naçons Unidas e Coordenador Humanitário da instituiçom no Iraque, afirmou recentemente que o atentado foi o preço que a ONU pagou polo seu conluio com os Estados Unidos. Em 24 de agosto passado, numha entrevista ao jornal escocês The Sunday Herald, sublinhou que continuar a colaboraçom com Washington "seria um desastre para as Naçons Unidas, porque se levará a apoiar com falsidades a ocupaçom ilegal do Iraque (...) tem se atraído a ONU para que seja um braço dos Estados Unidos, umha repartiçom do Departamento de Estado. Kofi Annan foi designado e apoiado por Washington, e isso corrompeu a independência da instituiçom". Numa entrevista concedida à BBC depois do atentado no Iraque, Boutros Ghali, ex-Secretário Geral do organismo internacional, se referiu à "percepçom em grande parte do Terceiro Mundo de que as Naçons Unidas, por causa da influência americana (sic)... é um sistema que discriminou muitos países do Terceiro Mundo". George Monbiot, do jornal britânico The Guardian (25 de agosto de 2003), observou: "O governo dos EUA tem deixado perfeitamente claro que a ONU pode atuar no Iraque somente como subempreiteira. As tropas estrangeiras receberam as suas ordes de Washington". Nengum destes comentários apareceu de algumha forma nos meios de comunicaçom de massa estadunidenses. A ONU tem se afastado muito dos seus princípios fundadores. Houvo um tempo em que era pola paz, a justiça social e a autodeterminaçom, e se opunha às guerras colonialistas, à expropriaçom das riquezas nacionais e à dominaçom colonial. Hoje, em funçom do seu papel subordinado na criaçom de um marco político compatível com umha prolongada dominaçom colonial estadunidense no Iraque, de maneira nenguma é um mistério o feito de que a resistência iraquiana pegou como alvo o prédio da instituiçom, assi como ataca ao exército imperial e os dutos do petróleo que foi colocado à venda para as transnacionais estadunidenses e européias. Depois de se alinhar a Washington, é o cúmulo da hipocrisia que os altos funcionários da ONU afirmem ser vítimas inocentes, da mesma forma que é um engano o feito de que os EUA e estes mesmos funcionários garantirem que a resistência anticolonial é integrada por "estrangeiros", "remanescentes" do regime de Saddam Hussein, terroristas da Al Qaeda, extremistas sunitas ou xiitas iranianos. A resistência nom se restringe à regiom onde Saddam Hussein era popular, nem aos territórios dos fiéis sunitas: está no norte e no sul, no leste e no oeste, e cobre todas as regions e enclaves étnicos e religiosos. A resistência é nacional, da populaçom local, e se baseia na oposiçom à ocupaçom estadunidense, à destruiçom da infra-estrutura e à degradaçom física e psicológica de 23 milhons de iraquianos. Enquanto os iraquianos sofrem um desemprego de 80% e carecem de água limpa, comida e eletricidade, os altos funcionários da ONU recebem salários entre 80 mil e 150 mil dólares ano, se deslocam em carros e camionetes de luxo com condutor, trabalham em escritórios equipados com ar condicionado e consomem alimentos frescos de importaçom em confortáveis condomínios e vilas, desfrutando do melhor da vida colonial. Nom é necessário formular hipóteses sobre a Al Qaeda para entender de que forma o ressentimento político e pessoal contra estes colaboracionistas imperiais que se sentem tam importantes pode estourar num ataque violento. Para muitos no Oriente Médio está claro que a Onu se tornou um corpo inútil de dependências vassalas dirigidas por funcionários escolhidos polos EUA, como Vieira de Mello, que nom polo seu carisma e inteligência compensam o feito de que colaboram com a construçom imperial estadunidense. Para um número cada vez maior de profissionais, jornalistas e, sobretodo, gente singela, torna-se evidente que as Naçons Unidas perderom a sua independência e utilidade como força de paz. Movimentos sociais cada vez maiores nas naçons do Terceiro Mundo se dirigem às novas organizaçons internacionais e fóruns para dar sustentaçom aos princípios que a ONU traiu. O órgao que surja deverá renunciar ao elitismo que caracteriza a instituiçom atual, com o seu sistema nada équo de votaçom e governo; terá que negar a filiaçom a países que favoreçam as guerras preventivas de conquista, domínio colonial e pilhage dos recursos naturais. Em breves palavras, a nova organizaçom internacional e o seu secretário geral nom devem ser um apêndice dos Estados Unidos quando o que se deseja é evitar a tragédia da ONU, órgao que nasceu com grandes ideais e acabou como um cínico manipulador de ideais a serviço do poder imperial. Fonte: La Jornada, 19/09/2003.
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